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Foto: Freepik

A situação do Brasil na corrida por uma vacina contra a Covid-19

Coronavírus

Das quatro vacinas testadas no Brasil, duas já têm acordo para produção no país: Coronavac e vacina de Oxford. Já a Pfizer, deu prazo de poucos dias para o governo brasileiro se posicionar sobre proposta de aquisição da vacina que tem 95% de eficácia.

A expectativa pela aplicação de vacinas contra a Covid-19 é particularmente grande no Brasil, um dos países mais atingidos pela pandemia. Na quinta-feira, 3, o Brasil superou a marca de 175 mil mortes pelo coronavírus, o segundo maior número no mundo após os Estados Unidos.

Dos mais de cem projetos em pesquisa e desenvolvimento de vacina em andamento, segundo dados da Organização Mundial da Saúde – OMS, quatro estão em testes no Brasil.

Nesta semana, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que são no máximo três as opções de empresas farmacêuticas desenvolvedoras de vacinas contra a Covid-19 que atendem às necessidades do Brasil, em termos de cronograma e quantidade suficiente de doses. Ele mencionou apenas a chamada vacina de Oxford, sem especificar quais seriam as outras duas opções.

Governos estaduais já firmaram parcerias próprias com projetos de vacinas. O governo de São Paulo fechou acordo para obter a vacina chinesa Coronavac. E a Sputnik V, do laboratório russo Gamaleya e que não está entre as quatro vacinas testadas no Brasil, é negociada num acordo a parte com os governos do Paraná e da Bahia.

Outra das candidatas mais promissoras de vacinas contra a Covid-19, a da farmacêutica americana Moderna, que apresentou 94,5% de eficácia e pediu autorização emergencial nos Estados Unidos e na Europa, ainda não tem acordo de venda fechado com o governo brasileiro.

Vacina de Oxford – Produzida pela farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca e a Universidade de Oxford, a vacina ChAdOx1 nCoV-19 está em teste no Brasil desde junho, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo – Unifesp. Segundo informações da Agência de Vigilância Sanitária – Anvisa, o imunizante criado no Reino Unido conta com 10 mil voluntários brasileiros e será fabricado no Brasil pela Fiocruz em sua unidade produtora de imunobiológicos Bio-Manguinhos, no Rio de Janeiro.

A tecnologia usada é conhecida como vetor viral recombinante, que emprega um adenovírus não replicante e não infeccioso, ou seja, que não pode causar doenças.

A vacina atual foi criada numa plataforma que já existia na universidade e que trabalhava com mers, doença causada por outro tipo de coronavírus. Foram deletados os genes que são responsáveis pela replicação do vírus e trocados por outros que vão codificar proteínas do novo coronavírus.

Quando essas moléculas estão dentro do corpo humano, elas passam a produzir a proteína do coronavírus, que o sistema imunológico reconhece como ameaça. O corpo então aprende a destruir essa proteína, como se fosse um “treinamento”. Quando o Sars-Cov-2 infecta o organismo de verdade, o sistema imunológico consegue reconhecer e combater o vírus.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que o país deve receber em janeiro e fevereiro 15 milhões de doses da vacina da AstraZeneca/Oxford. Até o fim de primeiro semestre de 2021, a expectativa é que esse número chegue a 100 milhões, segundo Pazuello. A Bio-Manguinhos deve começar a produzir o imunizante apenas no segundo semestre, com um volume esperado de 160 milhões de doses.

Com uma eficácia que varia de 62% a 90%, a proteção média oferecida por essa vacina é de 70%. Por outro lado, o imunizante ChAdOx1 nCoV-19 é mais barato e mais fácil de armazenar, o que facilita o seu transporte a regiões remotas.

Coronavac – A vacina da empresa chinesa Sinovac é testada no Brasil pelo Instituto Butantan, para o qual deve ser transferida a tecnologia para produção do imunizante no país. Com mais de 13 mil voluntários brasileiros, a Coronavac está em fase final de testes e aguarda o registro e autorização da Anvisa para uso.

A tecnologia empregada é bastante conhecida, baseada na manipulação em laboratório de células humanas infectadas com o novo coronavírus. Segundo o Instituto Butantan, a vacina é produzida com fragmentos inativados do coronavírus para inserção no corpo humano. Isso quer dizer que o vírus não é capaz de se reproduzir. Depois de receber a dose, o sistema imunológico começa então a produzir anticorpos para combater o Sars-Cov-2.

No Brasil, o Butantan tem tradição na produção de soros e vacinas. De lá saem doses contra influenza, hepatite B, raiva, difteria e tétano, entre outros.

Nesta quinta-feira, o governo de São Paulo recebeu um novo carregamento com insumos para a fabricação da vacina no estado, que devem ser suficientes para a produção de 1 milhão de doses. Em 19 de novembro, o governo paulista já havia recebido 120 mil doses prontas do imunizante.

Segundo o acordo fechado com o Butantan, o laboratório chinês enviará um total de 6 milhões de doses prontas para o uso. O Instituto paulista vai formular e envasar outras 40 milhões de doses. Segundo a Sinovac, o ideal é armazenar as vacinas com refrigeração, mas o transporte também pode ser feito em temperatura ambiente.

Alvo de disputa política entre o governador de São Paulo, João Dória, e o presidente Jair Bolsonaro, a Coronavac apresentou resultados considerados positivos: um estudo publicado em novembro na revista científica The Lancet Infectious Diseases mostrou que a dose levou à produção de anticorpos em quase todos os voluntários. Os estudos de fase 3, que medem sua eficácia, estão sendo finalizados e devem ser anunciados nos próximos dias.

Vacina da Pfizer/Biontech – Fruto da parceria entre a Pfizer, farmacêutica multinacional sediada nos EUA, e a alemã Biontech, a vacina BNT162b2 começou a ser testada no Brasil em junho, em pouco mais de 3 mil voluntários. Ainda não foi firmado acordo para a transferência de tecnologia para o Brasil.

Trata-se de uma vacina de RNA mensageiro (mRNA), considerada mais moderna, de terceira geração. O princípio do imunizante da Pfizer é fazer o próprio corpo produzir a proteína do vírus. Para isso, os cientistas identificaram a parte do código genético viral que carrega as instruções para a fabricação dessa proteína.

Depois que o material é injetado no corpo humano, ele dá instruções para que o organismo produza a proteína do vírus, o que vai desencadear a fabricação de anticorpos necessários para frear a Covid-19.

Apesar de sua eficácia, que chegou a 95% segundo resultados da terceira fase de testes clínicos, a fórmula da Pfizer-Biontech precisa ser armazenada a uma temperatura de -70ºC, a mesma de refrigeradores de laboratório, o que dificulta seu transporte por todo o Brasil. A vacina deve ser transportada em caixas especiais com gelo seco. Após a entrega, as doses podem ser armazenadas por até cinco dias numa geladeira comum.

Nesta semana, o Reino Unido se tornou o primeiro país a aprovar a vacina, que deve começar a ser aplicada na semana que vem. Uma vacina com a tecnologia de RNA mensageiro nunca havia sido aprovada para uso.

Sem acordo prévio de transferência de tecnologia, o governo brasileiro está sob pressão para decidir se vai comprar a vacina. Em meados de novembro, a Pfizer anunciou que fez uma proposta ao governo brasileiro para fornecer milhões de doses da sua vacina contra o novo coronavírus no primeiro semestre de 2021.

A farmacêutica diz, em nota, aguardar “posicionamento oficial do Ministério da Saúde em resposta à proposta” da companhia, “que expira em alguns dias”. A empresa já fechou venda para mais de 30 nações.

Os Estados Unidos, por exemplo, garantiram 50 milhões de doses da Pfizer antes da divulgação dos dados de eficácia. Depois, a União Europeia comprou 300 milhões e o Reino Unido, 30 milhões.

Os países da América Latina com quem a Pfizer já fechou negócio preveem iniciar a vacinação este mês ou no início de 2021, conforme o aval dos órgãos regulatórios locais. O Reino Unido vacina a partir da próxima semana – cada pessoa deve tomar duas doses.

O número de doses disponíveis para o Brasil também está sob sigilo. A empresa diz que seria “capaz de imunizar milhões de brasileiros já no 1º semestre” de 2021. Para este ano, ela produzirá 50 milhões de doses; no ano que vem, será 1,3 bilhão. As doses são reservadas a “países que fecharam acordos antecipados”.

Vacina da Janssen – Desenvolvida pela belga Janssen-Cilag, que faz parte do grupo Johnson & Johnson, a vacina AD26.COV2.S está sendo testada em 28 centros de pesquisa no Brasil, distribuídos em 11 estados, segundo a farmacêutica.

A plataforma usada foi empregada pela empresa na pesquisa e desenvolvimento de outros projetos, como a vacina contra o ebola, recém-aprovado pela Comissão Europeia. No caso da AD26.COV2.S, vetores de adenovírus, que causam o resfriado comum, foram modificados para desenvolver a vacina – mas eles não se multiplicam e não provocam doença nas pessoas.

A Anvisa ainda analisa o chamado pedido de submissão contínua feito pelo laboratório no fim de novembro. Nessa parte do processo, a fabricante informa os dados de qualidade do produto e de eficácia/segurança. O governo brasileiro ainda não tem um acordo assinado para transferência dessa tecnologia.

Sputnik V – A vacina russa não é testada no Brasil. Segundo a Anvisa, para esses casos, é preciso que devidos procedimentos para registro sejam cumpridos. Mesmo assim, o governo do estado do Paraná e o Instituto de Tecnologia do Paraná – Tecpar, assinaram em agosto um memorando para uma parceria no desenvolvimento da Sputnik V, do Instituto Gamaleya. O governo da Bahia também firmou um acordo com o instituto em setembro para ter acesso à tecnologia usada na produção da vacina.

A Rússia afirma que sua vacina contra a Covid-19 tem uma eficácia de 92%. No entanto, os dados ainda não foram revisados por outros pesquisadores ou publicados em revistas científicas.

Segundo a fabricante, a tecnologia combina dois vetores diferentes de adenovírus. Uma parte da proteína do coronavírus é inserida nos vetores. Quando o corpo entra em contato com a substância que compõe a vacina, ele começa a sua resposta imune.

Se a Sputnik V for liberada pela Anvisa, a Tecpar será responsável por todas as etapas, desde a pesquisa até a distribuição das doses. Na Rússia, o presidente Vladimir Putin já ordenou a vacinação em massa com o imunizante.

Países latinos já apostam em vários imunizantes – Mesmo governos que já haviam fechado acordo com outras farmacêuticas têm tentado ampliar o cardápio de imunizantes. Um exemplo é o México, 2º país mais populoso da América Latina, com 126 milhões de habitantes. O governo comprou 34,4 milhões de doses da Pfizer, em análise pelo órgão regulador. Apesar de barreiras logísticas, o país fala em iniciar a vacinação ainda este ano – já são previstas 250 mil doses – e ter 17 milhões de imunizados até o 2º bimestre. Lá, a Pfizer vai ser responsável pelo armazenamento do produto até a hora da vacinação, segundo a subsecretária de Assuntos Multilaterais da Secretaria de Relações Exteriores informou à Agência Efe. O país também tem acordo com a AstraZeneca.

Já o Chile adquiriu 10 milhões de doses da Pfizer, 14,4 milhões da AstraZeneca e mais 60 milhões da Sinovac ao longo de três anos. Todas estão sendo testadas no país andino. O Peru diz ter 9,9 milhões de doses da Pfizer e outras 13,2 milhões via Covax. Ainda negocia com várias empresas com Moderna, Sinovac, AstraZeneca, Sinopharm, Gamaleya, Novavax e Johnson & Johnson. A ideia é iniciar a imunização antes das eleições presidenciais de abril.

Na Argentina, o presidente Alberto Fernández chamou a missão de vacinar a população de 44 milhões de pessoas de uma “epopeia”. “A Argentina, com todo esforço, pode vacinar entre 4,5 e 5 milhões por mês.” O plano é chegar a 12 milhões de vacinados no primeiro momento – com foco em idosos, equipes de saúde e das Forças Armadas. Embora não haja data definida, autoridades locais estimam que a vacinação inicie na 1ª quinzena de janeiro. O país tem acordo com a vacina da Astrazeneca/Oxford – 22 de doses no 1º semestre – e com a russa Sputnik V – 10 milhões de doses, com possibilidade de ampliação. Negocia também com a Pfizer e a Jonhson & Johnson.

A Colômbia anunciou em novembro que esperava vacinar mais de 20% da sua população até o fim da primeira metade de 2021, destinada a profissionais de saúde e grupos de risco. Dez milhões dessas vacinas viriam da Covax, enquanto a país prepara unidades de resfriamento que possam acolher as vacinas da Pfizer em cinco cidades.  Esta semana, o Ministério de Finanças autorizou o investimento de cerca de US $120 milhões para comprar 10 milhões de doses da vacina da empresa americana.

O Uruguai planeja vacinar 1,2 milhão de pessoas em duas campanhas –aproximadamente 20% população, apenas com recursos garantidos pela Covax. O país investiu US$ 2,5 milhões para garantir acesso a 1,5 milhão de doses.

Fonte: Com Deutsche Welle Brasil e Estadão

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