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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Trapalhadas de Bolsonaro com política externa fragilizam imagem do Brasil

Brasil

Em oito meses no poder, Jair Bolsonaro fez opção por atacar líderes mundiais, intervir na política de países vizinhos e deixar a diplomacia para a família. O que fez o Brasil passar de promessa a superpotência para nação que ameaça os esforços mundiais de combate ao aquecimento global e de preservação do planeta.

Em 10 anos, o Brasil passou de promessa de futura potência econômica para país com economia desgovernada e, mais recentemente, nação que ameaça os esforços mundiais de combate ao aquecimento global e de preservação do planeta. E a imagem tóxica com que o mundo vê o país atualmente é proveniente das ações do presidente da República, Jair Bolsonaro. Em menos de oito meses no poder, o capitão transformou o Brasil em ameaça ambiental. No momento, a Amazônia arde nas manchetes da imprensa internacional. Virou assunto na ONU. Foi tema de debate na reunião do G-7, grupo dos líderes das sete maiores economias do mundo. Em guerra contra as ONGs, o capitão tornou-se alvo de protestos, dentro e fora do país.

Sob Bolsonaro, o governo fez opção preferencial por atacar líderes mundiais, intervir na política de países vizinhos e deixar a diplomacia para a família. A semana que inicia foi rica em exemplos emblemáticos do estágio a que chegou a política externa e a diplomacia brasileiras com o governo de Jair Bolsonaro. Diante das críticas do presidente francês, Emmanuel Macron, à série de queimadas na Amazônia, Jair Bolsonaro baixou ainda mais o nível e ofendeu de forma sexista a primeira-dama francesa, Brigitte Trogneux. O chefe de Estado francês afirmou que o comportamento do presidente brasileiro foi “triste” e “extremamente desrespeitoso” e espera que os brasileiros “tenham um presidente que esteja à altura do cargo”.

Antes disso, Bolsonaro se desentendeu com Alemanha e Noruega por conta de os países terem congelado os repasses de R$ 288 milhões ao Fundo Amazônia. Bolsonaro minimizou o movimento, classificou-o como uma forma para que o país parasse de “comprar à prestação a Amazônia” e mandou um recado à “senhora querida Angela Merkel” para reflorestar o próprio país.

O principal jornal do mundo, o The New York Times, publicou hoje, 26, texto de opinião intitulado “Uma devastação da Amazônia em todo o Brasil”, em que destaca: um tesouro global está à mercê do presidente Jair Bolsonaro, o menor, o mais maçante e o mais insignificante dos líderes.

Em junho, a ONU classificou o presidente brasileiro como líder do ranking de lideranças fracassadas no que diz respeito a mudanças climáticas.

Boicote na importação de carne brasileira e Acordo Mercosul/EFTA – A Finlândia, que tem a presidência rotativa da União Europeia, afirmou que pretende encontrar uma forma de fazer o bloco banir a importação de carne brasileira por causa da devastação causada por incêndios na Amazônia.

Além do anúncio do governo finlandês, a França, a Irlanda e Luxemburgo se colocaram contra o acordo entre União Europeia e Mercosul firmado em julho deste ano até que o governo brasileiro proteja a Amazônia das queimadas e do desmatamento. O acordo terá de ser ratificado pelos legislativos dos 31 países envolvidos antes de ser adotado.

Argentina – Antes de Cristina Kirchner anunciar sua recandidatura à presidência da Argentina, Bolsonaro já se demonstrava preocupado com a volta da esquerda ao poder no país vizinho. Com a confirmação da ex-presidente como vice de Alberto Fernández, ele engrossou o discurso sobre o “retorno da turma do foro de São Paulo na Argentina”, referindo-se à chapa como “bandidos de esquerda”.

Dentre os efeitos colaterais, Bolsonaro tem ameaçado retirar o Brasil do Mercosul. Como resposta, o presidenciável argentino referiu-se ao brasileiro como “racista, misógino e violento”.

Venezuela – Crítico ferrenho de Nicolás Maduro, Bolsonaro sempre alfineta o país vizinho como exemplo de decadência ou destino para possíveis exilados políticos. “Nas próximas eleições, vamos varrer essa turma vermelha no Brasil”, disse em discurso no Piauí, afirmando que vai “mandar os esquerdistas para Cuba ou Venezuela”.

Antes, ele já declarou apoio a Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela, durante sua tentativa de derrubar Maduro, em abril. Este, por sua vez, apelou às Forças Armadas brasileiras. “Faço um chamado às forças militares do Brasil a deter a loucura de Jair Bolsonaro e sua ameaça de guerra”, disse o líder chavista, que qualificou o presidente brasileiro como “filhote de fascista” e “imitador de Hitler”.

Países Árabes – Antes mesmo de tomar posse, Bolsonaro anunciou a transferência da embaixada do Brasil de Israel para Jerusalém. Mesmo não oficializada, a decisão causou desconforto nas relações com os países árabes, um dos nossos principais mercados para a exportação de carne. À época, a Liga Árabe ameaçou tomar “medidas políticas e econômicas” e, em janeiro, a Arábia Saudita decidiu vetar a entrada de cinco frigoríficos brasileiros em seu mercado, admitindo a retaliação contra o governo.

Em abril, o presidente anunciou a abertura de escritório comercial em Jerusalém. “Não estamos procurando encrenca com ninguém”, disse. A atitude não foi bem vista pelos árabes e irritou o Hamas, grupo extremista que controla a Faixa de Gaza. A situação piorou após Flávio Bolsonaro ter escrito no Twitter “Quero que vocês se explodam”, em referência à entidade. Por fim, Bolsonaro afirmou durante um encontro com grupos evangélicos que “é Israel quem decide sua capital” e abandonou a questão.

Brasil se alia a islâmicos em temas de sexo e família – Nas Nações Unidas, o Brasil se aliou a países de regimes autoritários e contra a Europa, em questões relacionadas a direitos da mulher, igualdade de gênero e violência do Estado contra a cidadania. O Brasil votou a favor de texto do Egito e Iraque na ONU que propunha excluir o termo “direito à saúde sexual e reprodutiva”, e também a favor de uma emenda de iniciativa da Arábia Saudita cujo teor era contrário à educação sexual de crianças e adolescentes, condicionando-a à “orientação dos pais e guardiões legais”. A representação brasileira na ONU ainda se absteve de votar outra resolução que propunha investigação de milhares de execuções de civis por forças militares nas Filipinas.

Em votação sobre outra resolução, relacionada à educação sexual, o Brasil apoiou mudança proposta pelo Paquistão, propondo excluir a recomendação de “garantir o acesso universal à educação abrangente sobre sexualidade baseada em evidências”. Em todas essas posições, o Brasil foi voto vencido.

Cuba – No início de agosto, Bolsonaro criticou a administração do programa Mais Médicos durante o governo de Dilma Rousseff, afirmando que os profissionais da saúde que vieram ao Brasil tinham como objetivo formar “núcleos de guerrilhas”. Ele também declarou que o PT usava o povo “para espoliá-lo, na base do terror, por um projeto de poder”.

Em sua conta oficial no Twitter, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel retrucou a fala de Bolsonaro: “Ele mente mais uma vez. É vergonhosa sua subserviência aos EUA. As calúnias vulgares contra Cuba e o Mais Médicos nunca conseguirão enganar o povo irmão brasileiro, que conhece bem a nobreza e humanidade da cooperação médica cubana”.

Eduardo Bolsonaro – Para coroar o desleixo de Bolsonaro com a política externa, o presidente da República indicou seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para o posto de embaixador do Brasil em Washington, o cargo mais importante da diplomacia brasileira no exterior. Bolsonaro pai afirmou que o filho tem experiência internacional, fala inglês e espanhol, e ainda sabe fritar hambúrguer.

A deterioração da imagem brasileira no exterior diante das atitudes do presidente Jair Bolsonaro em resposta aos incêndios na Amazônia e de seus conselheiros mais próximos, como os riscos do “globalismo”, o ceticismo em relação a instituições multilaterais como as Nações Unidas e a convicção de que o aquecimento global não passa de um complô marxista, terão consequências nas relações externas do Brasil. Ainda é cedo para se avaliar a dimensão do desgaste sofrido pelo país, mas o tratamento dado pelo capitão às questões ambientais e o embate com líderes mundiais provoca choques desnecessários com outros governos.

Chega a ser irônico observar este cenário uma vez que Bolsonaro dizia ser pró-Ocidente. Mas países ocidentais querem distância dele.

Não será simples recuperar a imagem brasileira. Uma das medidas urgentes é trocar o comando da política externa. A estratégia de se dizer defensor dos “valores cristãos e ocidentais” propagada pelo chanceler Ernesto Araújo fracassou. O Ocidente, ao menos o europeu, não compartilha dos mesmos ideais do governo Bolsonaro.

E, curiosamente, aliados de Bolsonaro como Netanyahu, Orban e Salvini, até agora, não saíram em defesa do presidente brasileiro. Só Donald Trump escreveu um tweet oferecendo ajuda no caso da Amazônia.

Fonte: Com O Globo, Estadão, El País, Veja, Metrópoles, Valor Econômico, UOL, Revista Época e BBC Brasil

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