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Foto: Adriano Machado/Reuters

Sem apresentar provas, Bolsonaro levanta suspeitas sobre efeitos colaterais de máscara

Brasil

Em dia de recorde de mortes em um único dia, 1.582, presidente da República cita "estudo de universidade alemã" para desestimular uso de acessório. "Estudo", na realidade, é uma mera enquete online com pouco rigor e que contou com participação desproporcional de céticos da pandemia. A eficácia da máscara na proteção da população é defendida pela OMS e por autoridades sanitárias de diversos países.

O presidente Jair Bolsonaro usou sua live de quinta-feira, 26, para mais uma vez desestimular o uso de máscaras contra a Covid-19. No mesmo dia em que o Brasil registrou a segunda pior marca de mortes pela doença em 24 horas, 1.582, o presidente mencionou uma “universidade alemã” que teria apontado num “estudo” que máscaras são “prejudiciais a crianças”.

“Começam a aparecer aqui os efeitos colaterais das máscaras”, disse Bolsonaro. “Uma universidade alemã fala que elas são prejudiciais a crianças. Leva em conta diversos itens: irritabilidade, dores de cabeça, dificuldade de concentração, diminuição da percepção de felicidade, recusa em ir para a escola ou creche, desânimo, comprometimento da capacidade de aprendizado, vertigem e fadiga”, completou o presidente.

Ao contrário do que disse o presidente, nenhuma universidade alemã elaborou qualquer estudo que chegou a essa conclusão. Na realidade, Bolsonaro citou os resultados de uma pouco rigorosa enquete online realizada por cinco pesquisadores da Universidade de Witten/Herdecke, no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália. O objetivo dos pesquisadores era formar um banco de dados para coletar relatos sobre o uso de máscaras em crianças.

Pesquisa pouco rigorosa – No segundo semestre de 2020, os pesquisadores disponibilizaram um questionário online para coletar relatos. Até 26 de outubro, 20.353 pessoas haviam respondido o questionário, inserindo dados de supostas 25.930 crianças. Entre os participantes, 87.7% indicaram serem “pais”. A participação era voluntária e aberta para qualquer pessoa que clicasse no link do questionário, sem qualquer coleta de amostras da população para ter um quadro representativo da sociedade alemã.

Os resultados, segundo os dados coletados, foram os seguintes: “Perturbações causadas pelo uso da máscara foram relatados por 68% dos pais. Incluíam irritabilidade – 60%, dor de cabeça – 53%, dificuldade de concentração – 50%, diminuição da felicidade – 49%, relutância em ir à escola/jardim de infância – 44%, mal-estar – 42% prejuízos à aprendizagem – 38% e sonolência ou fadiga – 37%”.

No entanto, os dados disponibilizados pelos pesquisadores deixam claro que a enquete tinha pouco rigor científico, funcionando mais como uma coletânea de anedotas. Os pesquisadores não estabeleceram grupos de controle com crianças sem máscaras para comparar os efeitos e também não colocaram em prática critérios para diferenciar efeitos de doenças ou condições pré-existentes. O questionário também exibe itens vagos, como “sensação de doença”.

Os próprios pesquisadores da Universidade de Witten/Herdecke admitem que os dados podem ter sido deliberadamente distorcidos de forma organizada. Nas conclusões da enquete, eles apontam que o link que levava ao questionário circulou por fóruns e páginas que reúnem críticos das medidas tomadas pelo governo alemão para conter a pandemia.

Por fim, os pesquisadores apontam que seu levantamento “não é representativo” e afirmam que é necessária “uma pesquisa representativa na qual uma análise precisa de risco-benefício do uso de máscara em crianças pode ser construída”.

Informações distorcidas e sem embasamento – Não é a primeira vez que Bolsonaro cita estudos duvidosos ou distorce de maneira grave dados para embasar suas ideias sem base científica sobre a pandemia. Em janeiro, por exemplo, o presidente divulgou no Twiter uma conclusão incorreta de um artigo publicado pela revista cientifica The American Journal of Medicine que comprovaria a eficácia da cloroquina contra a Covid-19. No entanto, a publicação de janeiro era uma mera revisão de outro artigo, que havia saído em agosto. Tanto o artigo original quanto a revisão não afirmavam que a droga seria eficaz, apenas apresentavam argumentos a favor, sem qualquer estudo clínico. O próprio editor-chefe da revista esclareceu a questão afirmando publicamente que os dados estavam defasados.

Pouco depois da publicação do tuite de Bolsonaro, a rede sinalizou a publicação de Bolsonaro afirmando que ela havia violado as regras da rede sobre publicações enganosas e potencialmente prejudiciais.

Além de não trazer elementos que embasem esse tipo questionamento sobre o uso das máscaras, Jair Bolsonaro contraria ainda uma orientação de seu próprio governo. O Ministério da Saúde recomenda o uso da proteção facial como uma das principais formas de combater a disseminação do novo coronavírus.

“Recomenda-se a utilização de máscaras em todos os ambientes. As máscaras de tecido (caseiras/artesanais), não são Equipamentos de Proteção Individual (EPI), mas podem funcionar como uma barreira física, em especial contra a saída de gotículas potencialmente contaminadas”, orienta a pasta em seu portal, que ensina ainda a como confeccionar o material.

A eficácia da máscara na proteção da população também é defendida pela Organização Mundial da Saúde – OMS e de autoridades sanitárias de diversos países, cujo trabalho se baseia em evidências científicas.

Fonte: Com Deutsche Welle Brasil, UOL e O Globo

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