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Foto: Altemar Alcantara/ AM

Rumo a 2 mil mortes por dia, Bolsonaro sabota medida de frear a Covid

Coronavírus

Em dia recorde de mortes pela Covid-19, presidente da República disse que, por ele, Brasil nunca adotaria restrição total de circulação. A imposição de lockdown restritivo fez Portugal sair do colapso com vários dias na liderança mundial em novos casos e mortes por milhão de habitantes e até um pedido de ajuda internacional, para ter agora uma das taxas de contágio mais baixas da Europa.

Enquanto o Brasil caminha rapidamente para a triste marca de 2 mil mortes registradas num único dia por Covid-19,  o presidente da República, Jair Bolsonaro continua sabotando o isolamento e o distanciamento social, únicas medidas capazes de frear a tragédia.

Ontem, 3, no dia em que o país atingiu novo recorde de mortes pelo coronavírus,  1.910, o presidente voltou a criticar medidas restritivas adotadas pelos estados e a rivalizar com o governador de São Paulo, João Doria. Bolsonaro disse que, por ele, o Brasil nunca adotaria o lockdown, usado para restringir a circulação nos picos da pandemia do novo coronavírus. “No que depender de mim, nunca teríamos lockdown. Nunca. É uma política que não deu certo em lugar nenhum do mundo. (Nos) Estados Unidos vários estados anunciaram que não tem mais. Mas não quero polemizar esse assunto aí”, declarou Bolsonaro.

À medida que o presidente brasileiro diz que não deu certo, fez Portugal sair do colapso com vários dias na liderança mundial em novos casos e mortes por milhão de habitantes e até um pedido de ajuda internacional para cuidar de seus doentes, para ter agora uma das taxas de contágio mais baixas da Europa. A redução nas infecções foi conseguida com a imposição de um confinamento bastante restritivo, Portugal passou de 16.432 casos em 28 de janeiro para 979 na quarta-feira, 3.

Em solo brasileiro temos uma população que é deixada exposta ao vírus e a maior autoridade do país dá informações falsas, se recusa a adotar as normas sanitárias e também a tomar as medidas que poderiam reduzir a contaminação. A estratégia do caos de Jair Bolsonaro está dando certo.

O resultado são perdas de vidas humanas. Infelizmente, o Brasil ultrapassará os 260 mil mortos até o final dessa semana e aumenta velozmente suas chances de se tornar em breve o país com o maior número de vítimas fatais da história da pandemia de Covid-19. Enquanto vários países do mundo terão sua população inteiramente vacinada nos próximos meses e começam a vislumbrar a possibilidade de superar a Covid-19, o Brasil enfrenta uma escalada.

Estratégia institucional de propagação do coronavírus – Hospitais estão sem leitos de UTI para Covid. Em vários municípios, falta oxigênio para pacientes não morrerem sufocados. A fome avança enquanto o Congresso Nacional debate a extensão do auxílio emergencial uma vez que o Ministério da Economia quis condicionar sua aprovação, veja só, a tirar verbas do Sistema Único de Saúde – SUS.  Toda a ação do governo federal tem método. Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e da Conectas Direitos Humanos provou que o governo federal executou um plano de disseminação do vírus.

Segundo o estudo, revelado pelo El País, há intenção, há plano e há ação sistemática nas normas do governo e nas manifestações de Bolsonaro. “Os resultados afastam a persistente interpretação de que haveria incompetência e negligência de parte do governo federal na gestão da pandemia. Bem ao contrário, a sistematização de dados, ainda que incompletos em razão da falta de espaço na publicação para tantos eventos, revela o empenho e a eficiência da atuação da União em prol da ampla disseminação do vírus no território nacional, declaradamente com o objetivo de retomar a atividade econômica o mais rápido possível e a qualquer custo. Esperamos que essa linha do tempo ofereça uma visão de conjunto de um processo que vivemos de forma fragmentada e muitas vezes confusa, afirma o editorial da publicação.

A linha do tempo do estudo é composta por três eixos apresentados em ordem cronológica, de março de 2020 aos primeiros 16 dias de janeiro de 2021: 1) atos normativos da União, incluindo a edição de normas por autoridades e órgãos federais e vetos presidenciais; 2) atos de obstrução às respostas dos governos estaduais e municipais à pandemia; e 3) propaganda contra a saúde pública, definida como “o discurso político que mobiliza argumentos econômicos, ideológicos e morais, além de notícias falsas e informações técnicas sem comprovação científica, com o propósito de desacreditar as autoridades sanitárias, enfraquecer a adesão popular a recomendações de saúde baseadas em evidências científicas, e promover o ativismo político contra as medidas de saúde pública necessárias para conter o avanço da Covid-19”.

Em carta pública, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde – Conass reivindicou nessa semana a determinação de um toque de recolher para todo o território brasileiro e o fechamento de bares e praias, entre outras medidas. Os secretários afirmaram que o país vive o pior momento da pandemia e exigiram “condução nacional unificada e coerente”. Também pediram a suspensão das aulas presenciais e de eventos, incluindo atividades religiosas. “A ausência de uma condução nacional unificada e coerente dificultou a adoção e implementação de medidas qualificadas para reduzir as interações sociais. Entendemos que o conjunto de medidas propostas somente poderá ser executado pelos governadores e prefeitos se for estabelecido no Brasil um ‘Pacto Nacional pela Vida’ que reúna todos os poderes, a sociedade civil, representantes da indústria e do comércio, das grandes instituições religiosas e acadêmicas do país, mediante explícita autorização e determinação legislativa do Congresso Nacional”.

Bolsonaro se recusa. Promove aglomerações, como aquela que causou em praias de Santa Catarina, para sabotar o isolamento. Mente deliberadamente sobre a importância da mascara. E agora, com as vacinas acabando, com a cloroquina encalhada, o presidente achou outra arma milagrosa para o enfrentamento da pandemia. O spray nasal israelense, que ainda está na fase 1 do ensaio clínico, testou apenas 30 pessoas.

Com ações e frases de deboche sobre a tragédia ditas pelo presidente brasileiro, como o “e daí? E “país de maricas”, o Brasil pode ver cenas ainda mais alarmantes nos próximos dias e sem perspectivas nenhuma de intervenção. O lamento da colunista do El País, Eliane Brum, é a triste realidade do Brasil atual. O que mais falta acontecer até que interrompam a política de morte do governo federal? “O que mais falta acontecer, ver e provar para compreender que estamos submetidos a um projeto de extermínio? Primeiro vimos pessoas morrerem em agonia por falta de oxigênio nos hospitais. Depois assistimos às cenas de pessoas intubadas que, por escassez de sedativos, tiveram que ser amarradas em macas para não arrancarem tudo por dor e desespero. O que mais falta? Qual é o próximo horror? De qual imagem necessitamos para entender o que Bolsonaro está fazendo? Precisamos compreender por que estamos nos deixando matar, subvertendo o instinto primal de defender a vida, que mesmo o organismo mais primário possui. Mas precisamos entender enquanto agimos, porque não há tempo. A alternativa é seguir assistindo Bolsonaro executar sua política de morte até não podermos mais assistir porque também estaremos mortos”, afirmou.

Fonte: Com El País, UOL e O Globo

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