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Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Queiroga assume Ministério da Saúde no auge da crise e faz crítica ao lockdown como estratégia

Política

Bolsonaro substitui general Pazuello, cuja gestão foi marcada por alinhamento incondicional com o Planalto e escalada da crise sanitária. Em entrevista, o novo comandante da pasta já se alinhou ao novo chefe e disse que médicos têm autonomia para prescrever tratamentos, mesmo sem eficácia comprovada.

O médico cardiologista Marcelo Queiroga será o novo ministro da Saúde. Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, será o quarto titular da pasta na pandemia e assume no pior momento da crise sanitária, com recorde de mortes e do número de estados com sistemas de saúde colapsados ou próximos ao colapso. Ele substituirá o general Eduardo Pazuello, cuja gestão foi marcada por alinhamento incondicional com o Planalto e problemas na organização da campanha de vacinação contra a Covid-19.

Em sua primeira entrevista após a nomeação, à emissora CNN, o cardiologista indicado pelo senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), primogênito do presidente, equilibrou as palavras para não contrariar o novo chefe, mas sua estreia contraria os governadores que impõe restrições de circulação pelo auge dos contágios no país. Disse que lockdown não pode ser “política de governo” e só deve ser aplicado em situações extremas – sem precisar se estamos em uma situação extrema, com recordes de mortes. Um dia depois de criticar o uso da cloroquina contra a Covid-19, já contraindicado pela Organização Mundial da Saúde, Queiroga disse que médicos têm autonomia para prescrever tratamentos, mesmo sem eficácia comprovada.

A nomeação de Queiroga encerra dias de fritura de Pazuello, em especial nas últimas 24 horas. O cardiologista diz que não é possível “inventar a roda” no combate à pandemia, mas terá no Planalto um obstáculo se quiser usar a fórmula que tem sido aplicada em todo o mundo para conter os danos da pandemia: isolamento social e uso de máscaras, por exemplo. O mais recente médico que havia passado pela pasta, o oncologista Nelson Teich, deixou o posto apenas 29 dias depois de assumi-lo justamente por divergências com Bolsonaro. Antes dele, o ministro era o ex-deputado federal e ortopedista Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), que também deixou o cargo por embates com o presidente.

Queiroga é próximo dos Bolsonaro – o novo titular da Saúde participou da equipe de transição do governo Bolsonaro e é amigo da família da mulher do senador Flávio Bolsonaro –, mas ainda assim, antes desta segunda-feira e de sua nomeação, não escondia sinais de divergência. Em entrevista à Folha de S. Paulo neste domingo e já cotado para o cargo, ele afirmou ser contra a utilização da cloroquina, uma das obsessões de Bolsonaro, no tratamento da Covid-19.

Outro desafio de Queiroga será acelerar a vacinação no Brasil num contexto de disputa global por doses, uma corrida em que o país chega atrasado. Até o momento e mesmo tendo um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, o SUS, menos de 5% da população brasileira foi vacinada, contra índices robustos nos EUA – cerca de 20% ou Chile – mais de 16%. À CNN, ele disse confiar no plano traçado até agora pelo governo para comprar imunizantes pregou “união”.

Pressa de Bolsonaro e exposição nas TVs – Bolsonaro tinha pressa em anunciar um substituto de Pazuello principalmente porque a sua primeira opção, Ludhmila Hajjar, logo após rejeitar o convite, reforçou críticas ao governo que ela já vinha fazendo ao longo da pandemia. Foi praticamente uma exposição das vísceras de Bolsonaro e Pazuello na TV. Em entrevistas para explicar as razões que a fizeram recusar o cargo, Hajjar disse que não havia convergências técnicas com o presidente Bolsonaro e afirmou que o novo ministro deveria ter autonomia para atuar.

“Acho que o cenário é bastante sombrio. O Brasil vai chegar rapidamente em 500 mil, 600 mil mortes e não só isso, mas todo o impacto que esta doença terá em longo prazo, sequelas e consequências que não estão sendo pensadas”, afirmou Hajjar à emissora de TV Globo News. Antes, à emissora CNN Brasil, ela havia dito que sempre se dedicou à ciência. E, agora, não podia ser diferente. “Fiquei extremamente honrada com o convite, mas eu sou uma pessoa que pautei minha vida toda nos estudos e na ciência, vou continuar sendo assim e vou estar sempre à disposição do Brasil.” Ela disse ter sido perseguida nas redes sociais por apoiadores do bolsonarismo e que tentaram até invadir o seu quarto de hotel em Brasília.

A confirmação de Queiroga foi precedida de um ato de despedida de Pazuello, que há dias começara a perder força principalmente entre seus colegas militares que circundam o presidente. Eles querem minimizar os efeitos negativos à imagem das Forças Armadas depois da catastrófica condução da Saúde feita por ele com o aval de Bolsonaro. Dois sinais de alerta foram dados: a sinalização de que o Brasil pode assumir definitivamente a dianteira no número de mortes diárias por Covid-19 –tomando a posição dos Estados Unidos – e a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao tabuleiro eleitoral, já que o petista recuperou os seus direitos políticos e faz sombra ao presidente, com contundentes críticas ao governo na gestão da emergência sanitária.

Pazuello sempre obedeceu Bolsonaro e está sob investigação da Polícia Federal pela crise do oxigênio em Manaus, um dos momentos mais dramáticos da crise, quando pessoas morreram sem o insumo na capital do Amazonas. Na entrevista coletiva na qual admitiu que estava de saída do cargo, o general enviou um recado: afirmou que durante uma guerra a manobra militar mais difícil ocorre quando se trocam as tropas de posição em meio a uma batalha.

O presidente prevê duas semanas de transição enquanto especialistas apontam as consequência ocupação por militares de cargos estratégicos do Ministério da Saúde. Caberá a Queiroga avaliar substituição da tropa. A troca no comando do Ministério ocorre no auge da pandemia de Covid-19 no Brasil. Na semana passada, o novo normal na contabilidade de mortos foi o de superar os 2.000 óbitos diários. Na segunda-feira, 15, o país chegou às 279.286 mortes em decorrência do coronavírus – são 10,5% de todos os casos do mundo, o Brasil concentra 3% da população mundial.

Fonte: Com El País e Folha de S.Paulo

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