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Foto: Sandro Pereira/FotoArena

Morrer sem oxigênio em Manaus, a tragédia que escancara a negligência política na pandemia

Caos na Saúde

Pacientes de uma ala inteira morreram asfixiados em um Hospital Universitário. Profissionais de saúde desesperados tendo que julgar quem deve salvar, quem deve viver. Familiares e profissionais comprando cilindros de oxigênio por conta própria visando salvar a vida dos pacientes. Manaus viveu e vive cenas de terror desde a quinta-feira, 14, depois que seu sistema de saúde colapsou e o estoque de oxigênio zerou nas unidades de saúde. Após dez meses de pandemia, o Amazonas vive uma tragédia anunciada. E evitável.

As autoridades estaduais e federais afirmam que o suprimento de oxigênio acabou devido a um salto inesperado no número de casos. Não, não foi surpresa. Infectologistas, epidemiologistas e cientistas apontavam que a redução no isolamento, incentivado por autoridades como o presidente da República, cobraria um preço altíssimo no meio de janeiro.

Além disso, a multinacional White Martins, uma das principais fornecedoras de oxigênio para os centros de saúde de Manaus, afirma que comunicou o governo federal e o governo do estado do Amazonas sobre a possibilidade de faltar oxigênio medicinal em Manaus. E que pediu apoio logístico do Ministério da Saúde. Nada fizeram, precisou acontecer uma tragédia e ela ser divulgada para o mundo todo ver, que as autoridades começaram a se mexer.

Na segunda-feira, 11, três dias antes do caos explodir na cidade, o ministro da saúde, general especialista em logística, Eduardo Pazuello, reconheceu a falta de oxigênio na cidade e disse que a única solução era esperar um novo carregamento. Pazuello deu de ombros (literalmente) e declarou: O que você vai fazer? Nada. Você e todo mundo vai esperar chegar o oxigênio para ser distribuído”. Após o colapso, o ministro diz que período chuvoso e falta de ‘tratamento precoce’ pioraram cenário de Manaus. A hidroxicloroquina e a ivermectina, o tal do tratamento precoce que o Ministério da Saúde pressionou a prefeitura a distribuir aos pacientes nos hospitais municipais, são medicamentos para malária e para tratar piolhos, ineficazes contra o coronavírus.

A tragédia nacional é fruto do descaso extraordinário, da falta de senso de emergência, do desprezo pela vida e da covardia de muitos governantes. No fim de 2020, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC) viu hospitais cheios e determinou o fechamento do comércio para conter o alastramento do vírus. Acuado por protestos fomentados por políticos bolsonaristas, entre eles, os deputados federais Bia Kicis (PSL-DF), Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) e Carla Zambeli (PSL-SP), o governador desistiu e mandou reabrir as lojas.

Quando o sistema de saúde da capital amazonense foi o primeiro a colapsar no país, no primeiro semestre do ano passado, o governador do Estado foi acusado de comandar o esquema de superfaturamento de contratos e desviar recursos destinados ao combate da Covid-19.

A negligência deliberada ao combate da pandemia não se resume ao governo estadual. Meses antes da falta de oxigênio em Manaus, o presidente Jair Bolsonaro tem falado e agido em confronto com as medidas de proteção, em especial a política de isolamento da população. O presidente já usou as palavras histeria e fantasia para classificar a reação da população e da mídia à doença.

Além dos discursos, o presidente assinou decretos para driblar decisões estaduais e municipais, fez aglomerações, atacou governadores e prefeitos, criticou o fechamento de escolas, incentivou invasão a hospitais e vetou o uso obrigatório de máscaras em escolas, igrejas e presídios – medida que acabou derrubada pelo Congresso.

Além disso, o governo federal deixou de usar verbas aprovadas para combater a pandemia para reestruturar hospitais, contratar profissionais de saúde, comprar mais testes de Covid-19. Uma MP em maio destinou dinheiro para o Ministério da Saúde contratar 5 mil profissionais por tempo determinado. Eles deveriam atuar em áreas mais impactadas pela pandemia. Relatório da Câmara dos Deputados, com dados até 20 de novembro, mostra que apenas 4,6% do dinheiro foi efetivamente gasto. A pasta ficou autorizada a gastar R$ 338,2 milhões com a medida. Os pagamentos feitos não chegaram a R$ 16 milhões.

Desde o começo da pandemia, a CNTS tem alertado o descaso dos governos perante a pandemia, tem cobrado das autoridades medidas que visem proteger os trabalhadores da saúde e a população desta terrível doença. Tem cobrado insumos básicos aos profissionais que estão na linha de frente. Tem que recorrer à justiça para conseguir o mínimo de direitos aos profissionais.  O governo deveria ter feito mais. Muito mais. Infelizmente o que estamos vendo são autoridades que gozam com o sofrimento alheio e promovem a morte.

A colunista do El País, Eliane Brum, reforça que o caos que assola o Amazonas é negligência deliberada. “Jair Bolsonaro deixou a Covid-19 avançar e agiu para reter recursos públicos destinados ao enfrentamento da doença, para afastar os quadros técnicos com experiência em saúde pública e epidemias, para vetar medidas decisivas de prevenção e para tumultuar o combate ao vírus. Os fatos mostram que Bolsonaro foi deliberadamente incompetente, intencionalmente negligente, sistematicamente irresponsável”.

O pior disto tudo é que o colapso que acontece em Manaus pode ocorrer em outros estados, como em São Paulo, onde tanto a capital quanto cidades do interior já registram alta de mortes em decorrência do coronavírus. E em outros sete estados, que estão com mais de 80% das UTIs ocupadas. “Nesta pandemia, o que aconteceu primeiro em Manaus sempre aconteceu depois no resto do Brasil. Manaus sempre está na frente e depois a gente vai seguindo”, alertou a enfermeira e doutora em epidemiologia Ethel Maciel.

Fonte: Com informações do Estadão, Folha de S.Paulo, UOL e El País

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