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Foto: Alex Pazuello/Semcom-AM

Com um ano de pandemia, negligência e descaso fazem o Brasil ultrapassar 250 mil mortes

Coronavírus

Faz exatamente um ano de confirmação do primeiro registro oficial da Covid-19 no Brasil. Passados 12 meses, com conduta negligente e irresponsável, o país ultrapassa 250 mil mortes e vive a pior fase da doença. Para piorar a situação, apenas 3% da população está vacinada e o presidente da República lança ofensiva contra a farmacêutica Pfizer, uma das mais eficazes vacinas contra a doença.

Doze meses depois do registro do primeiro caso da Covid-19, o Brasil superou na quarta-feira, 24, a marca de 250 mil vidas ceifadas pela doença e registrou a maior média móvel de óbitos de toda a pandemia, 1.127. A negligência e o descaso das autoridades deixam um saldo que equivale a três Maracanãs lotados ou a aniquilação total da população de uma cidade média brasileira – como Americana (SP), Itaboraí (RJ) ou Novo Hamburgo (RS).

O marco acontece na mesma semana do aniversário de um ano do primeiro caso de coronavírus confirmado oficialmente no Brasil. No dia 26 de janeiro, um homem de 61 anos foi internado em um hospital em São Paulo, após ter passado os dias do carnaval na Lombardia, na Itália.

Apenas duas semanas depois, no dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde – OMS declarou oficialmente que havia uma pandemia de coronavírus, que se originou em Wuhan, na China. Naquele dia, havia 118 mil casos confirmados em 114 países do mundo, com 4,2 mil mortes. No entanto, naquela época ainda pouco se sabia sobre o vírus, e havia poucos testes e estatísticas confiáveis.

Nos meses que seguiram, houve muita confusão e pouco entendimento do que poderia acontecer. Estimativas sobre o número de mortos variavam de 1 milhão de mortos – previsão de pior cenário feita pelo Imperial College de Londres – a menos de 3 mil mortos – previsão do deputado negacionista, Osmar Terra.

No final de março, o então ministro da Saúde, Henrique Mandetta, previu que até abril haveria um colapso do sistema brasileiro de saúde, que seria incapaz de lidar com as hospitalizações em massa. No mesmo dia, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, se referiu ao coronavírus como “uma gripezinha” e estabeleceu o padrão de minimização da doença pelo seu governo.

Meses depois, dois ministros que tentaram aplicar medidas para conter a doença foram forçados a sair, e atualmente a pasta está sob o comando do general “especializado em logística” que não sabia nem o que era o SUS, que escondeu os números da pandemia, que foi negligente com a falta de oxigênio em Manaus e que está coordenando um ineficaz plano de vacinação.

Números tão expressivos, como o de 250 mil mortos, deixam ensinamentos. Ou indicam que as lições não foram aprendidas. Para a microbiologista Natália Pasternak, os números mostram que o Brasil aprendeu pouco durante um ano de enfrentamento à pandemia. “Enquanto o mundo inteiro juntou conhecimento sobre o vírus e a transmissão da doença, estamos num ritmo de transmissão acelerado. Grande parte da população nega a gravidade da pandemia e a própria pandemia. Aglomerações em bares, restaurantes e festas oferecem condições propícias para o vírus se espalhar ainda mais. Esses 250 mil mortos são um símbolo da nossa incapacidade de gerir a pandemia no Brasil. A gente aprendeu muito pouco em um ano”, afirma a presidente do Instituto Questão de Ciência – IQC.

Perspectivas – Negacionismo, aglomerações, descaso, incentivo a invasão de hospitais, testes vencidos sendo jogado fora, milhões gastos em um remédio ineficaz contra a Covid-19 podem resumir o ano da pandemia no Brasil. E o pior disto tudo é que não há perspectivas de melhoras em curto prazo. O país vive a pior fase da doença, com pico de internações, com nova cepa do vírus detectada no território nacional, com sistema de saúde de alguns estados quase colapsando e com a ineficácia do planejamento do cronograma de vacinação.

No Brasil, o atraso nas compras de vacina, insumos e no registro dos produtos, além da falta de uma coordenação nacional da logística, preocupam os especialistas. Enquanto outros países têm uma ação efetiva para controlar a pandemia com as campanhas de vacinação, o Brasil vive a angústia da falta de imunizantes.

Até o momento, apenas 2,92% da população brasileira foi vacina, porém, as doses estão acabando. Pressionado por conta da situação, o ministro da Saúde prometeu a entrega até mesmo de vacinas que ainda não foram contratadas, como a Sputnik, Covaxin e Moderna. E além disso, o governo corre atrás de adquirir a vacina desenvolvida pela farmacêutica americana Pfizer em parceria com a empresa alemã Biontech, uma das mais eficazes contra a doença.

Entretanto, o presidente da República lança ofensiva contra a vacina, que o governo dele desprezou 70 milhões de doses em agosto. A negociação está emperrada porque a farmacêutica quer que o governo se responsabilize por eventuais demandas judiciais por reações adversas. As cláusulas não são exclusivas da empresa, mas de várias farmacêuticas. Seguem um padrão internacional e estão em vigor em contratos ao redor do mundo. Na América Latina, apenas o Brasil, a Venezuela e a Argentina não teriam aceitado as regras.

No cenário de cobertura vacinal da população, o Brasil é um dos últimos nessa corrida. Para recuperar esse terreno, Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, avalia que as próximas semanas devem ser focadas em estabelecer acordos relevantes para aquisição de vacinas. “A gente precisa conseguir maior número de doses. Não é 1 milhão ou 2 milhões aqui. Precisamos de acordos grandes com empresas que possam produzi-las ainda no primeiro semestre. Não tivemos vontade política para fazer acordos no momento certo. Não temos perspectiva real de controle para a doença para oferecer à população, perspectiva que pode ser vista em outros países que já estão se vacinando”, diz o especialista.

Fonte: Com BBC Brasil, Estadão e Deutsche Welle Brasil

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