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Foto: Fernando Crispim/Agência Amazônia Real

Com gestão caótica, Brasil se torna o terceiro país do mundo com mais infectados

Coronavírus

A queda de dois ministros da Saúde e o boicote do presidente às quarentenas impedem a luta contra o vírus, que já infectou 254.000 pessoas, atrás apenas dos números de Estados Unidos e Rússia.

Com quase 17.000 mortes e 254.000 infecções, o Brasil tem um dos surtos mais ativos do mundo. O balanço oficial o coloca como o terceiro país em casos, após ultrapassar o Reino Unido ontem,18 – e a Itália e a Espanha durante o fim de semana –, e o sexto em mortes. Mas a realidade no país mais populoso da América Latina pode ser muito pior por vários fatores: é um dos que fizeram menos testes, as hospitalizações por síndrome respiratória aguda e as mortes suspeitas dispararam desde o primeiro contágio. A gestão da crise da saúde e das quarentenas é cada vez mais caótica em um país que há apenas alguns anos teve notáveis avanços na luta contra a Aids e a zika.

O impacto da Covid-19 é muito desigual neste território de dimensões continentais e 210 milhões de habitantes, que também enfrenta a crise tendo como obstáculo um presidente negacionista, Jair Bolsonaro, que boicota diretamente os esforços dos governadores para que as recomendações de isolamento sejam respeitadas e para a contenção da pandemia. Walter Cintra, especialista em administração hospitalar da Fundação Getúlio Vargas, lembra que a velocidade do contágio e da letalidade surpreenderam toda a comunidade científica, mas destaca que o Brasil “vive uma tragédia” por causa de um problema adicional: seu governo federal.

“O presidente comprou uma guerra contra a ciência, transformou-a em um projeto político e até ameaça com um golpe de Estado. É muito difícil gerenciar uma pandemia como essa. Ultrapassou todos os limites”, enfatiza. Cintra, médico e professor, destaca que é preciso calibrar muito bem as medidas de isolamento social porque “as pessoas não podem morrer de fome em casa”, precisam ganhar a vida. E reivindica ajuda social porque nem todos os brasileiros podem se dar ao luxo de ficar confinados.

Colapso nos Estados – Para além da discussão política, os alarmes disparam até mesmo em São Paulo, a capital econômica. Embora seja o epicentro da epidemia, sua rede hospitalar é muito mais robusta que a de Estados do Nordeste, mais pobres, onde o sistema já entrou em colapso. O prefeito Bruno Covas alertou no domingo que 90% das UTIs desta cidade de 12 milhões de habitantes estão ocupadas, o que requer fechamento total semelhante ao implementado no início deste mês por outras capitais menores, como São Luis (Maranhão), Belém (Pará) ou Fortaleza (Ceará). Manaus não o fez, apesar de seu sistema de saúde e funerário estarem saturados há semanas.

O prefeito de São Paulo gostaria de proibir todas as atividades não essenciais, mas ressalvou que confinar a cidade sem incluir toda a Região Metropolitana faria pouco sentido e, assim, passou a bola para o governador, que não se decide a dar o passo. São Paulo foi um dos primeiros lugares a fechar as escolas e estabelecer uma quarentena há 55 dias, mas, após algumas semanas de cumprimento relativamente rigoroso, os cidadãos relaxaram por necessidade ou descaso, e só metade da população fica em casa.

É impossível saber mesmo aproximadamente a magnitude da pandemia porque o Brasil só conseguiu fazer cerca de 350.000 testes. Destes, 150.000 estão com processamento pendente. A Espanha, com cinco vezes menos população, fez 1,3 milhão.

Queda de dois ministros da Saúde em um mês – E ainda há o desgoverno no Ministério da Saúde. As pressões de Bolsonaro são constantes desde o início da crise. Quer do jeito que for preciso que as autoridades de saúde relaxem as recomendações de isolamento – para retomar a atividade econômica – e que a cloroquina – um medicamento antimalárico – seja incluída nos tratamentos de saúde pública, apesar de carecer de aval científico. Foi demais para os dois últimos ministros. Ambos são médicos e, para não violar o juramento de Hipócrates, foram embora para casa.

As rédeas do ministério estão temporariamente em mãos do general Eduardo Pazuello, especialista em logística que admitiu não conhecer a gestão da saúde. Chegou ao ministério em abril como o número dois, com a missão de organizar a compra e transferência dos equipamentos necessários para enfrentar a epidemia. Com ele, 10 dos 22 ministros vêm das Forças Armadas.

Bolsonaro pretende incluir a cloroquina no protocolo de saúde pública para atender os casos leves. Dado o possível aumento da demanda, o Exército, que o fabrica para a malária, acelerou a produção.

Fonte: El País

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