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Foto: Pedro Guerreiro/ g. Pará

Cidades de 12 estados têm risco de colapso na oferta de oxigênio

Colapso da Saúde

Dados obtidos pelo jornal O Globo mostram que falta do insumo é iminente em mais de 110 cidades de todas as regiões do país.

Municípios de pelo menos 12 estados estão sob risco de colapso na oferta de oxigênio devido à superlotação dos hospitais com pacientes da Covid-19. Um mapa da Frente Nacional de Prefeitos – FNP, obtido com exclusividade pelo jornal O Globo, mostra que pelo menos 41 cidades têm previsão de falta do insumo em breve.  O número total, porém, já chega a 116 cidades no mínimo, se considerado um levantamento da reportagem com todos os estados da Federação.

Dois estados, Rio Grande do Norte e Rondônia, detalharam à reportagem a quantidade de municípios com risco de desabastecimento na oferta de oxigênio, somando 78 cidades — que não estão contempladas na lista da FNP. Junto com as mapeadas pela entidade, tem-se as 116 em risco de colapso, o que pode levar ao chamado “sufocamento a seco”, como ocorreu em Manaus no início do ano com pacientes que morreram sem ar.

A Secretaria de Saúde do Rio Grande do Norte respondeu ao Globo que foi informado pela regional do Conselho Nacional de Secretários Municipais – Conasems que 46 municípios do estado estão com intermitência no fornecimento do insumo. Diante do quadro, o governo estadual encaminhou na última quarta-feira um ofício ao Ministério da Saúde solicitando apoio.

Em Rondônia, o cenário também acendeu alerta. Em 15 dias, há possibilidade de que 32 municípios entrem em colapso de fornecimento de oxigênio. Cidades como Ji Paraná, com cerca de 130 mil habitantes, e outras menores, como Nova Mamoré, com cerca de 30 mil habitantes, e Alta Floresta, com cerca de 22 mil habitantes, estão na lista.

Na capital do estado, quatro hospitais estão com risco de desabastecimento: Hospital de Guarnição, Hospital da Astir, Centro Cardiológico de Terapia Intensiva e Hospital das Clínicas. Segundo a secretaria, o Ministério da Saúde enviaria cilindros de oxigênio ao estado na quinta-feira, 18, mas não informou a quantidade.

O estado do Ceará não entrou na conta de municípios afetados compilada pelo Globo, uma vez que o dado de 70 cidades com o problema de abastecimento de oxigênio foi fornecido pelo Conasems e não pela secretaria estadual. Caso a reportagem contasse os municípios cearenses que, segundo o Conasems, solicitaram apoio para oxigênio, o número seria ainda maior.

A secretaria de Saúde cearense confirmou que o abastecimento de oxigênio tem sido interrompido pela empresa fornecedora nos finais de semana, o que levou o governo estadual a recorrer ao Ministério Público. Mas não forneceu número ou nome das cidades afetadas.

Segundo o levantamento da FNP, há municípios de 11 estados com problemas de oxigênio: Bahia, Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Rio Grande do Norte, Maranhão, Sergipe, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Ceará, Santa Catarina. Além desses, o Globo localizou ainda risco de colapso em cidades de Rondônia, totalizando 12 estados com relatos de escassez do insumo.

O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, Carlos Eduardo Lula, afirmou que o cenário que se desenha é preocupante e que nos próximos dias o país pode enfrentar novamente a escassez do insumo.

“Há uma sobrecarga nas cidades pequenas e médias, que não dispõem de rede própria. Elas fazem abastecimento de oxigênio por meio de cilindro. Esse tipo de condução para paciente com Covid-19 não funciona, porque exige uma troca de muitos cilindros por dia e a empresa não tem capacidade. Então, as cidades que não dispõem de um tanque ou de uma usina, ou de estrutura mais complexa, para abastecimento de oxigênio vai ter dificuldade de repor esses estoques. É muito provável que nas próximas semanas a gente tenha relatos de cidades com escassez de oxigênio”, explicou Lula.

Vivemos o drama dos cilindros, diz Ministério – O diretor de Logística do Ministério da Saúde, general Ridauto Fernandes, reconheceu a iminência do colapso na quinta-feira, ao falar em audiência no Senado. Ele não descarta “falta perigosa” de oxigênio, principalmente nos pequenos hospitais, sobretudo do interior, “em poucos dias”.

O representante do governo federal afirmou que as pequenas unidades de saúde, dependentes do oxigênio gasoso, são as mais afetadas, até pela falta de cilindros no mercado. Já os hospitais maiores, explicou, recebem o produto em forma líquida e o transforma em gás, o que facilita o fornecimento. Fernandes citou que diferentes cidades, em estados do Sul, do Norte e até do Sudeste, já relatam problemas. “Hoje estamos vivendo o drama dos cilindros, precisamos adquirir cilindro em grande quantidade”.

Hospitais menores e as unidades de pronto atendimento – UPAs não costumam ter tanques para fornecimento e armazenamento de oxigênio e dependem exclusivamente do abastecimento através de cilindros, ou seja, utilizam oxigênio gasoso, o mais difícil de ser transportado. Por vezes, carretas ficam dias à espera de abastecimento e, depois, tem que percorrer longas distâncias até as cidades do interior.

Por outro lado, hospitais de cidades maiores costumam receber o produto em forma líquida e o transformam em gás, o que facilita o fornecimento. “É um desafio de transporte e estocagem dos hospitais”, explica o representante da Air Liquid Brasil, Rafael Montagner.

Para otimizar o abastecimento, o presidente da Associação Brasileira de Indústria Química – Abiquim, Ciro Marino, cobrou que o Ministério da Saúde centralize a logística, para que o setor produtivo se concentre apenas na produção. Para a Abiquim, as empresas do ramo têm sido sobrecarregadas burocraticamente por secretarias, prefeituras, agências e órgãos em diversos níveis da administração pública, diante do quadro de incertezas.

Outra dificuldade apontada na audiência foi a falta de mão de obra qualificada para o serviço de abastecimento dos hospitais. “Os motoristas dos nossos caminhões não são somente motoristas, mas também são operadores técnicos. Não é mão de obra fácil para ser contratada e treinada”, observou o representante da White Martins.

Governadores se mobilizam – O governador do Paraná, Ratinho Junior, já acionou o Ministério da Saúde para tratar do tema. Segundo ele, o problema no Estado não é falta de oxigênio em si, mas de cilindros que são fundamentais para fazer o produto chegar ao paciente no hospital. Ele disse que “mais que 20 municípios” já relataram o problema e que o governo federal está ajudando na logística.

“A indústria que produz o cilindro também está sobrecarregada, então nós fizemos um planejamento para que não falte”, disse Ratinho Junior, que se uniu a outros dois governadores do Sul para tratar do assunto com o governo federal.

O Globo procurou o Ministério da Saúde para saber quantos estados ou municípios fizeram algum pedido de ajuda ou alertaram sobre falta ou iminente escassez de oxigênio, mas a pasta não retornou.

Fonte: O Globo e Deutsche Welle Brasil

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