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Foto: José Dias/PR

Após ultimato de Bolsonaro por uso de cloroquina, Nelson Teich pede demissão

Política

Então ministro da Saúde informou que não poderia mudar o protocolo do medicamento sem comprovação científica. Médico, que entrou em choque Jair Bolsonaro, ficou menos de um mês na pasta.

O ministro da Saúde, Nelson Teich, pediu demissão do cargo, nesta sexta-feira, 15, após ser convocado ao Palácio do Planalto pelo presidente Jair Bolsonaro. O médico e o presidente tiveram divergências sobre políticas públicas em meio à pandemia de coronavírus.

A falta de entendimento sobre o protocolo do uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 seria uma das principais motivações para o pedido de demissão. Atualmente, a recomendação da pasta é a utilização apenas em casos graves e de internação. Bolsonaro, porém, tem defendido a prescrição ampla da substância, que não tem o efeito contra a doença comprovada.

Nos bastidores, Teich teria dito que não quer manchar a própria trajetória como médico para mudar um protocolo. O impasse começou quando Teich defendeu, na última terça-feira, 12, nas redes sociais, que o medicamento não tem eficiência comprovada e causa profundos danos colaterais. “Um alerta importante: a cloroquina é um medicamento com efeitos colaterais. Então, qualquer prescrição deve ser feita com base em avaliação médica. O paciente deve entender os riscos e assinar o “Termo de Consentimento” antes de iniciar o uso da cloroquina”, disse.

O presidente, no entanto, insiste no uso da medicação desde o surgimento dos primeiros sintomas e promete desde o início da semana uma mudança no protocolo do uso do medicamento contra a Covid-19. “Estou exigindo a questão da cloroquina agora também. Se o Conselho Federal de Medicina decidiu que pode usar cloroquina desde os primeiros sintomas, por que o governo federal via ministro da Saúde vai dizer que é só em caso grave?”, questionou.

E ainda acrescentou: “Eu sou comandante, presidente da República, para decidir, para chegar para qualquer ministro e falar o que está acontecendo. E a regra é essa, o norte é esse”.

Mais cedo, na saída do Palácio da Alvorada, ele voltou a pressionar o ministro para o uso do medicamento. “O meu entendimento, ouvindo médicos, é que ela deve ser utilizada desde o início por parte daqueles que integram grupo de risco”, disse. “Se eu for acometido, tomo a cloroquina e ponto final. Eu que decido minha vida”, garantindo que não faltará médico para receitar.

A informação dada por Bolsonaro contradiz parecer do Conselho Federal de Medicina, emitido em 23 de abril, sobre a cloroquina. O CFM informa no parecer 04/2020, que “após analisar extensa literatura científica, a autarquia reforçou seu entendimento de que não há evidências sólidas de que essas drogas [cloroquina e hidroxicloroquina] tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença [Covid-19]”. Ainda assim, a entidade fixou critérios para que os medicamentos possam ser usados no contexto da pandemia de coronavírus, como a prescrição médica e o aceite do tratamento por parte do paciente.

Mais divergências – Houve também cobrança por parte do governo sobre a demora dele em divulgar um plano mais flexível sobre isolamento. Nelson Teich foi convidado por Bolsonaro para assumir a pasta com a expectativa de equilibrar as ações da pasta de forma a evitar mortes por coronavírus, mas também minimizar o impacto econômico das medidas de restrição.

Inicialmente, chegou a dizer que o país “não sobrevive um ano parado” e defendeu um “plano de saída” do isolamento. Em seguida, pressionado por parlamentares, passou a dizer que o ministério “nunca mudou” de posição sobre o distanciamento. Ainda assim, vinha defendendo que as medidas sejam avaliadas de acordo com o cenário de cada local.

O ministro chegou a programar o anúncio de um plano que previa diferentes níveis de distanciamento a serem aplicados por estados e municípios, com base na avaliação de diferentes indicadores. A divulgação, porém, foi cancelada em cima da hora por falta de consenso com representantes de secretários estaduais e municipais de saúde. Essa foi a primeira derrota do ministro no cargo.

Desde que Teich assumiu o cargo, o governo já vinha ampliando o número de militares na gestão da saúde. O ministro também não chegou a definir sua equipe completa, deixando postos-chave na assistência sem definição.

Teich é o segundo ministro a deixar a Saúde em meio à pandemia. Juntamente com o impasse sobre o isolamento social, divergências sobre a aplicação da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes da Covid-19 foram um dos principais pontos que levaram à demissão de Luiz Henrique Mandetta, em 16 de abril.

Enquanto Bolsonaro cria crises, vidas são perdidas – A CNTS reitera sua preocupação com sucessivas trocas de comandos no Ministério da Saúde. Infelizmente, o presidente da República insiste em desperdiçar energias de um país em emergência. São 207 mil casos confirmados e 14.131 mortes. Ontem, 14, o Brasil ultrapassou a França em número total de casos confirmados da Covid-19 e se tornou o 6º país no mundo com mais casos acumulados da doença, segundo levantamento da universidade Johns Hopkins. Na terça, o Brasil já tinha ultrapassado a Alemanha nesse ranking.

Mais uma vez, Jair Bolsonaro, convertido por sua incoerência e egocentrismo, produz ruído em torno do nada. No momento em que o Brasil mais precisou da liderança de Bolsonaro, ela não apareceu. Pelo contrário, ele se dedicou a facilitar os óbitos de milhares de brasileiros não apenas por um negacionismo passivo, mas lutando ativamente contra as medidas sanitárias, furando quarentenas e atacando duramente quem tenta salvar vidas. Muitos acreditaram nas palavras do presidente e foram às ruas, contaminar e ser contaminado.

Quando o Brasil ultrapassou a marca de cinco mil mortos por Covid-19 e o presidente debochou ao falar dos mortos, a CNTS afirmou que Bolsonaro deveria estar rodando o país, ajudando-os, independente de partido ou ideologia, perguntando o que precisam para tratar dos cidadãos. Ao invés, está empenhando em barracos políticos, palpites infundados sobre medicamentos como cloroquina e incentivo à quebra do isolamento.

A Confederação reafirma mais uma vez: precisamos que Bolsonaro presida este país. Compre respiradores; construa hospitais; compre EPIs; valorize os trabalhadores da saúde que estão arriscando a vida para salvar a população; garanta ajuda aos brasileiros pagando o auxílio emergencial; mantenha os empregos; cuide das pequenas empresas; e respeite a dor do seu povo.

Fonte: Com Correio Braziliense, Valor Econômico, Estadão e Folha de São Paulo

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