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Foto: Alex Pazuello/Semcom

Após sabotar combate ao coronavírus, Bolsonaro debocha ao falar de mortos

Brasil

Brasil ultrapassa a marca de cinco mil mortos por Covid-19 e o presidente da República questiona: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

Num só dia, o Brasil recebeu três más notícias sobre a pandemia do coronavírus. O país registrou um novo recorde de mortes: 474 em apenas 24 horas. Isso fez o total de vítimas superar a marca dos cinco mil. Para completar, o Brasil ultrapassou a China no ranking de países com mais mortos pela Covid-19. Diante desses fatos, qualquer presidente razoável se sentiria obrigado a reconhecer a gravidade da situação. Mas Jair Bolsonaro preferiu fazer piada com a tragédia. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, disse, ontem, 28.

O Brasil assisti a cenas inéditas, com caixões sendo empilhados em covas coletivas, a exemplo do que se viu na capital do Amazonas e do Pará. Manaus, por exemplo, pediu ajuda ao governo federal para evitar sepultamentos em sacos plásticos. Na capital fluminense não há mais leitos disponíveis. Belo Horizonte mandou abrir 1.900 covas. Estão começando a se popularizar os contêineres frigoríficos para estocar carne humana, essa carne brasileira que tem sido tão barateada.

O país da “gripezinha”, como Bolsonaro chamou a doença, ocupa o 9º lugar no ranking de mortos e o 14º em número de contaminações: 71.886. E o próprio governo admite que os números são bem maiores, uma vez que o número de testes feitos para confirmar a Covid 19 está muito abaixo do necessário. E, no entanto, as autoridades federais, entre perplexas e raivosas, não conseguem nem mesmo se solidarizar com as famílias atingidas. Além da Covid-19 e de outras moléstias que já matavam no país, o Brasil também passa pela doença da falta de empatia, do desrespeito com a vida e da alienação, como afirma o jornalista Reinaldo Azevedo.

“Já vimos grandes correntes de solidariedade se formar no país em momentos de tragédia. Hoje, no entanto, assistimos a uma espécie de suspensão coletiva do juízo e do padrão mínimo de decência. É claro que não é um sentimento generalizado. Talvez nem seja majoritário. Mas é escandalosamente perceptível para que não seja apontado. No caso da indagação de Bolsonaro, bastaria, na condição de chefe de Estado, a expressão de alguma solidariedade, de algum compadecimento genuíno, de alguma, enfim, empatia”, afirmou.

No momento em que o Brasil mais precisou da liderança de Bolsonaro, ela não apareceu. Pelo contrário, ele se dedicou a facilitar os óbitos de milhares de brasileiros não apenas por um negacionismo passivo, mas lutando ativamente contra as medidas sanitárias, furando quarentenas e atacando duramente quem tenta salvar vidas. Muitos acreditaram nas palavras do presidente e foram às ruas, contaminar e ser contaminado.

Certos ou errados, os governadores e prefeitos tentam de alguma forma administrar o caos, lidam com a tragédia em seus hospitais locais. Bolsonaro deveria estar rodando o país, ajudando-os, independente de partido ou ideologia, perguntando o que precisam para tratar dos cidadãos. Ao invés, está empenhando em barracos políticos, palpites infundados sobre medicamentos como cloroquina e incentivo à quebra do isolamento.

Bolsonaro perguntou o que poderia fazer diante da tragédia que assola o país. Simples: presida. Compre respiradores; construa hospitais; compre EPIs; valorize os trabalhadores da saúde, que estão arriscando a vida para salvar a população; garanta ajuda aos brasileiros pagando o auxílio emergencial decentemente, sem obrigá-los e enfrentar longas filas e dias para conseguir; mantenha os empregos; cuide das pequenas empresas; e respeite a dor do seu povo.

Com esta pandemia, Bolsonaro, que adora se gabar de suas credenciais militares, tinha pela frente uma oportunidade real de liderar. Era o cenário ideal para mostrar serviço: reuniões do Estado-Maior, visitas à linha de frente, discursos patrióticos sobre união, sacrifício, heroísmo. Era o ideal de um militar pronto para ser realizado. Mas a realidade é outra. Bolsonaro só se preocupa com as batalhas das redes sociais, indo contra o consenso para incitar seus radicais apoiadores e criando confusão inútil para manter o circo funcionando, os likes e compartilhamentos em alta.

O jornalista Leonardo Sakamoto ressalta que em momentos de calamidade pública, um país precisa de pessoas com a estatura técnica, moral e política do desafio a ser enfrentado. “Bolsonaro é, portanto, a pessoa errada na hora errada – e vamos todos pagar o preço disso. O ideal seria que ele desse lugar a quem sabe o que fazer. Ou, ao menos, ficasse quieto e não atrapalhasse. Como isso não deve acontecer, poderia providenciar mais caixões para enterrar dignamente as pessoas, que morrerão graças à sua irresponsabilidade”, afirma.

Fonte: Com UOL e O Globo

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