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Foto: Prefeitura de Manaus

Amazonas vive segunda onda de Covid-19, aponta Fiocruz

Coronavírus

Primeiro Estado a entrar em colapso e pioneiro na retomada das aulas, Amazonas é apontado por pesquisadores como possível guia do que pode ocorrer no resto do país.

Primeiro Estado em que o sistema de saúde entrou em colapso na pandemia do novo coronavírus e também pioneiro na retomada das aulas, o Amazonas é apontado por pesquisadores e sanitaristas como um possível guia do que pode ocorrer no restante do Brasil. Após um arrefecimento da crise sanitária, os casos e óbitos por Covid-19 voltaram a subir entre amazonenses e uma possível segunda onda mostra que a imunidade coletiva pode ser mais difícil de ser alcançada do que se pensava.

Após um pico de registros de casos e óbitos em maio, a curva de indicadores epidemiológicos do Estado apresentava uma tendência de queda. Em setembro, contudo, o cenário mudou. O ápice de vítimas fatais foi registrado em 9 de maio, segundo o Monitora Covid-19, com 65,86 mortes [aplicando a média móvel de 7 dias]. Houve um recuo e os registros chegam a 10,43 em  1º de setembro, porém saltam para 31,29 no dia seguinte, segundo a plataforma da Fiocruz – Fundação Oswaldo Cruz.

Como reação à piora no quadro sanitário, na última quinta-feira, 24, o governo do Amazonas decretou o fechamento de bares e balneários em Manaus, abertos em julho. A medida valerá por 30 dias. Também passou a ser proibida a permanência nas praias de rio da capital. Restaurantes continuam a poder funcionar até as 22 horas.

O plano de reabertura das escolas, por outro lado, segue em vigor. Em 30 de setembro, voltam às atividades presenciais em 107 unidades do Ensino Fundamental, em um modelo híbrido. A decisão afeta 111 mil alunos e 3 mil professores. Desde 10 de agosto, estudantes do Ensino Médio retomaram parcialmente as aulas nas unidades de ensino. Sanitaristas alertam que a transmissão controlada do vírus e a retomada gradual são determinantes para que a reabertura das escolas seja segura.

Para o pesquisador da Fiocruz, Jesem Orellana, as medidas são insuficientes para conter a circulação do vírus no Estado. Orellana defende lockdown pelo período de 14 dias. “Para você conseguir conter a circulação do vírus não há outra solução que não seja o lockdown e rigoroso. Em que você consiga fazer uma fiscalização efetiva da mobilidade intermunicipal, tanto da parte de transporte coletivo quanto do privado das pessoas“, afirmou.

Estrutura hospitalar – Além da experiência escolar, a retomada de casos e óbitos também pode servir de alerta para outros estados com relação à desmobilização da estrutura hospitalar. Sanitaristas alertam que gestores públicos devem estar atentos para que os equipamentos possam voltar a ser usados, caso necessário.

No Amazonas, dois hospitais de campanha foram fechados e houve diminuição do número de leitos no hospital de referência, na capital. Única cidade do estado com UTI – Unidade de Terapia Intensiva, Manaus foi a primeira a registrar um cenário caótico. Em 10 de abril, profissionais de saúde relatavam que o Hospital Delphina Aziz seria o primeiro hospital público de referência do país a colapsar em razão da pandemia.

Até 13 de setembro, as internações por dia estavam na casa de um dígito e subiram para dois dígitos no dia seguinte. Na última quinta-feira, foram 22 no estado, sendo 19 na capital, de acordo com dados da Secretaria de Saúde.

Para especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil, os boletins epidemiológicos mais recentes frustram a expectativa de que o estado teria atingido uma “imunidade de rebanho”. ”É uma lição que o vírus está nos dando de que a questão da imunidade é muito mais complexa do que modelos matemáticos”, afirma o infectologista Bernardino Albuquerque, pesquisador da Fiocruz.

“Se eu tenho um recrudescimento, fica claro que essa questão da imunidade de rebanho ainda não se consolidou. Tenho uma população suscetível e quando faço um relaxamento de medidas, dou mais oportunidade de um contato efetivo entre pessoas portadoras da Covid. A doença vai aumentar na sua frequência e também na sua gravidade”, completou Albuquerque.

O que é a imunidade de rebanho? – Quando houve um recuo nos indicadores epidemiológicos do Amazonas, alguns analistas levantaram a hipótese de que o Estado teria atingido uma imunidade coletiva e que o mesmo poderia ocorrer no restante do país, ao longo do tempo. O conceito de imunidade de rebanho é usado em programas de vacinação para definir um patamar em que os não vacinados também estão protegidos de forma indireta.

Na pandemia, alguns cientistas usaram modelos matemáticos para calcular uma possível imunidade coletiva para Covid-19 mesmo sem vacina. Essa estratégia é criticada por alguns motivos. Ela normaliza um número alto de mortes, desincentiva a adoção de medidas não farmacológicas – como isolamento social e uso de máscaras – e é imprecisa. Isso porque ainda há dúvidas no meio científico tanto sobre a transmissão quanto sobre a imunização para o SARS-CoV-2.

Os números da epidemia no Amazonas – Até a sexta-feira, 25, o Amazonas acumulava 135.205 casos, 4.000 óbitos – 2.487 na capital e 1.513 no interior – e registrava mortalidade de 96,5 por 100 mil habitantes, acima da média nacional, de 66,9 mortes por 100 mil habitantes.

De acordo com dados do Monitora Covid-19, da Fiocruz, ao usar o filtro da média móvel de 7 dias, para minimizar falhas nos ritmo de notificações, o pico de novos casos ocorreu em 29 de maio, com 1.695 registros. É possível observar uma tendência de queda, ainda que com oscilações no período seguinte. O menor número – 488 foi registrado em 10 de setembro.

Desde 11 de setembro, contudo, há uma retomada de aumento de contaminações, que chegaram a 684 na última quinta-feira, segundo dados da Secretaria de Saúde.

A interpretação dos dados epidemiológicos oficiais é limitada. Há subnotificação de casos e de óbitos. Também há um atraso entre o dia de fato da morte e do registro oficial, que pode ser de até um mês. A alta de contaminação também pode estar associada à maior oferta de testes ou de diagnósticos clínicos na rede de saúde.

Entre os casos confirmados de Covid-19 no Amazonas, há 334 pacientes internados, sendo 219 em leitos clínicos – 86 na rede privada e 133 na rede pública –, 111 em UTI – 52 na rede privada e 59 na rede pública – e 4 em uma estrutura para pacientes críticos antes do encaminhamento a outros pontos da rede de atenção à saúde. Há ainda outros 44 pacientes suspeitos internados.

O infectologista Bernardino Albuquerque aponta para uma subnotificação de diagnósticos devido a limitações da vigilância epidemiológica e ao comportamento da população. “Houve certo comodismo da população na ocorrência de quadros respiratórios. Se perdeu muito o pavor inicial e hoje as pessoas estão convivendo com quadro respiratório em casa. Essa notificação não chega ao serviço de saúde. A gente não tem a visibilidade disso”, afirma.

Fonte: Com Huffpost Brasil e Carta Capital

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