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Foto: José Cruz/Agência Brasil

Recessão resultou na morte de mais de 30 mil brasileiros, diz pesquisa internacional

Brasil

Estudo elaborado em parceria por economistas e médicos brasileiros e do Reino Unido aponta que o aumento de um ponto percentual no índice de desemprego eleva em 0,5% a taxa de mortalidade.

A recessão teve consequências mais nefastas no Brasil do que o aumento do desemprego. Estudo inédito mostrou que 31.415 pessoas de 15 anos ou mais tiveram a morte relacionada aos efeitos da crise econômica. Pesquisa realizada por economistas e médicos sanitaristas do Brasil e do Reino Unido, constatou que, a cada ponto percentual de aumento na taxa de desemprego, a mortalidade sobe 0,5 ponto percentual. São mortes que poderiam ser evitadas, dizem os autores.

No período de 2012 a 2017, a taxa de desemprego subiu de 8,4% para 13,7%. E a taxa de mortalidade aumentou 8%, de 143 mortes por cem mil habitantes para 154 mortes por cem mil. Metade dessa alta está relacionada à recessão.

Os autores do estudo, publicado por uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo voltadas para saúde, a Lancet Global Health, compararam dados de mais de 5 mil cidades brasileiras.

Constataram que onde havia mais gastos com o Sistema Único de Saúde – SUS e programas como Bolsa Família, os efeitos da recessão foram pouco sentidos na mortalidade. Os mais atingidos pelo aumento da mortalidade foram homens negros, entre 30 e 59 anos. “As recessões parecem particularmente ruins para a saúde em países que não têm programas de assistência médica e proteção social fortes. É essencial que o Brasil proteja os investimentos no SUS e no Bolsa Família, que são reconhecidos internacionalmente e fornecem proteção vital para a saúde e o bem-estar do país”, afirmou o autor principal do estudo, Tom Hone, do Imperial College London.

Outro autor da pesquisa, Rudi Rocha, da Fundação Getulio Vargas – FGV e coordenador de pesquisa do Instituto de Estudos de Políticas de Saúde – Ieps, afirma que, por causa da recessão, houve restrição fiscal, o que piora o acesso e a qualidade dos serviços de saúde, principalmente para doenças que envolvem tratamentos mais complexos, como câncer.

O impacto maior da recessão está no Sudeste, segundo a pesquisa. Foram 16.894 mortes, ou 53% do total, enquanto o número de habitantes responde por 42% do total do Brasil. No Nordeste aconteceram 5.948 mortes que podem estar associadas à recessão – 18,9% do total.

Para reduzir os efeitos da recessão na saúde, Tom Hone aconselha aumentar a proteção social e o gasto público com saúde. “Mercados formais de emprego mais fortes, com proteção e redes de segurança, incluindo benefícios e apoio para os que perdem empregos, minimizam os efeitos. Podemos dizer que as 31 mil mortes foram em áreas com gasto público baixo ou insuficiente”, explicou.

Em países ricos, número de mortes cai na crise – Em países de alta renda, a mortalidade cai em períodos recessivos, devido à menor participação em atividades de risco, como dirigir. A jornada de trabalho fica menor, e o tempo gasto em atividades mais saudáveis aumenta. Mas, em países de renda média, como o Brasil, esse movimento é o inverso. Houve mais mortes por problemas cardiovasculares e por câncer.

“As doenças cardiovasculares estão ligadas a estresse, situação agravada com a crise. A relação com o câncer não é tão clara, mas especula-se que há redução de acesso e menos diagnósticos precoces. Saúde não é só questão de serviços, está ligada às políticas sociais, econômicas. O que acontece de bom ou ruim no mundo econômico afeta a saúde”, afirma outro autor do estudo, o médico Maurício Barreto, da Universidade Federal da Bahia e da Fundação Oswaldo Cruz.

Fonte: Com O Globo

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