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Foto: Susana Vera/Reuters

Dia Mundial da Saúde: trabalhadores da saúde e o SUS pedem socorro

Saúde

Desde que o coronavírus chegou ao Brasil no ano passado, a pauta da saúde acabou se tornando prioritária em todos os estados, que buscam cada vez mais alternativas para barrar o avanço da doença em seus territórios. A situação, porém, é desesperadora. O Brasil é o pior país na gestão da pandemia, com o segundo maior número de mortes no mundo. Na terça-feira, 6, o Brasil atingiu mais um triste recorde na pandemia, 4.195 pessoas perderam a vida para a Covid-19. Infelizmente, a situação pode ficar pior. O Brasil pode superar o recorde dos Estados Unidos de mais de 5 mil óbitos por Covid-19 por dia.

E o Brasil não chegou ao colapso total porque possui profissionais da saúde dedicados, que mesmo esgotados, estão na linha de frente da batalha diária travada nos hospitais, clínicas e postos de atendimento, desempenhando papel fundamental no cuidado à população. E também porque possui um Sistema Único de Saúde – SUS, universal e gratuito, que mesmo sucateado pelo governo federal, está salvando a vida de milhares de brasileiros afetados pela Covid-19.

Neste Dia Mundial da Saúde, 7 de abril, a CNTS reforça as homenagens ao SUS e aos trabalhadores da saúde – enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, médicos, farmacêuticos, atendentes, encarregados da limpeza, maqueiros e demais funcionários de hospitais e centros de saúde pelo seu trabalho e dedicação na linha de frente do combate à Covid-19.

Profissionais estes que estão submetidos a situações precárias e sem condições adequadas de trabalho, vivendo em situação de elevado estresse, com sobrecarga de trabalho em função da falta de profissionais. Em muitos casos sem direito de ter um local adequado para repouso e descanso durante os turnos de trabalho.

Pesquisa recente feita pela Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz aponta que, em um ano de enfrentamento à pandemia, os profissionais da saúde estão esgotados. Dos 25 mil entrevistados – entre médicos, enfermeiros, odontólogos, fisioterapeutas, farmacêuticos e outras categoriais da área da Saúde – 50% admitiram excesso de trabalho, com jornadas além das 40 horas semanais. Além disso, 45% afirmaram que precisam de mais de um emprego para sobreviver. Os dados da pesquisa indicam que 43,2% dos profissionais de saúde não se sentem protegidos no enfrentamento da Covid-19 e o principal motivo – para 23% deles – é a falta e a inadequação do uso de EPIs – equipamentos de proteção individual.

A pesquisa também mostra que 15,8% dos entrevistados relataram perturbação do sono; 13,6% irritabilidade, choro frequente, distúrbios em geral; 11,7% incapacidade de relaxar e estresse; 9,2% dificuldade de concentração ou pensamento lento; 9,1% perda de satisfação na carreira ou na vida, tristeza e apatia; 8,3% sensação negativa do futuro e pensamento suicida; e 8,1% relataram alteração de apetite ou de peso. E a situação dos trabalhadores da saúde na pandemia pode ser ainda pior. Outra pesquisa, também da Fiocruz, pretende analisar as condições de vida, o cotidiano do trabalho e a saúde mental dos chamados trabalhadores invisíveis na pandemia. A pesquisa que será finalizada em abril, engloba 50 categorias, como técnicos e auxiliares de enfermagem, de raio-x e de análise laboratorial, motoristas de ambulância, e agentes de segurança e de limpeza.

Estes profissionais estão gritando por socorro. Temos uma categoria abandonada pelos governos, pelos gestores, pelas autoridades e que se encontra exaurida, estressada, doente, com medo, inclusive, muitos estão abandonando o posto de trabalho e pedindo demissão, porque não estão dando conta. O número de profissionais infectados e de óbitos da área da saúde é elevadíssimo. Somando os 12 meses de pandemia, os profissionais da enfermagem são as maiores vítimas, com 1.893 profissionais mortos. Entre os médicos, foram 695 óbitos.

Em março deste ano, a CNTS e federações filiadas cobraram das autoridades medidas para proteger os trabalhadores da saúde. Em carta, as entidades alertaram que se estes trabalhadores não obtiverem ajuda das autoridades competentes e da população, o colapso no sistema de saúde pode aprofundar ainda mais e não será por falta de leitos de UTI, mas por problemas na força de trabalho especializada no combate à Covid-19.

Não é apenas a CNTS que apela aos governos e líderes pela segurança dos profissionais da saúde. Em setembro do ano passado, a Organização Mundial da Saúde – OMS já alertava que a segurança dos trabalhadores da linha de frente da pandemia é uma prioridade. “Nenhum país, hospital ou instituição de saúde pode manter seus pacientes seguros a menos que preserve a segurança de seus profissionais de saúde. Chamo nossos Estados Membros e seus parceiros para garantirem condições de trabalho seguras e decentes para os profissionais de saúde, acesso a formação e equipamento de proteção e igualdade salarial, especialmente para as mulheres, que constituem quase 75% da força de trabalho da saúde e enfrentam múltiplas cargas”, afirmou a entidade da ONU.

A CNTS exige que as autoridades de saúde responsáveis em cada área de atuação tomem, imediatamente, todas as medidas necessárias para o apoio, proteção e segurança de milhões de profissionais da saúde destacados para o atendimento da população. Não é possível deter esta pandemia sem proteger primeiro os trabalhadores da saúde.

Pandemia evidencia a importância do SUS – Neste Dia Mundial da Saúde também é necessário não apenas destacar a importância do SUS, o maior sistema gratuito e universal do mundo de saúde pública, mas também de valorizá-lo. Apesar de subfinanciado, o SUS é o único no mundo a oferecer todo tipo de atendimento. Sem ele, um teste de Covid-19 custaria pelo menos R$ 5 mil.

Sete a cada dez brasileiros recorrem ao sistema quando surge algum problema de saúde, o que gera mais de 1 bilhão de consultas médicas e mais de 4 bilhões de procedimentos ambulatoriais, executados anualmente. Tudo isso, com um investimento de menos de R$ 120 bilhões, o que, de acordo com a OMS, é considerado bem abaixo da média mundial.

Mesmo com o duro golpe sofrido em 2016, que foi a gota d’água para o total desmonte do financiamento do SUS, a promulgação da Emenda Constitucional 95/2016, de autoria do governo Temer, que limita os investimentos públicos por 20 anos, é o SUS, neste momento, quem tem atendido aos brasileiros que sofrem com a Covid-19.

Mesmo perdendo cerca de R$ 22 bilhões desde a promulgação da emenda, o SUS conta com 45 mil Equipes de Saúde da Família que atuam em 40 mil Unidades Básicas de Saúde, 4700 hospitais públicos ou conveniados e 32 mil leitos de UTI via SUS. No ano passado, foram realizadas 330 milhões de visitas domiciliares e 3,7 bilhões de atendimentos ambulatoriais. Dentre outros atendimentos, ele é o único responsável pelo Programa Nacional de Imunização, um dos mais importantes do mundo. Se o governo federal tivesse adquirido vacinas para a população, o SUS poderia vacinar 2,4 milhões de pessoas por dia. Mas não temos vacinas. E elas podem nem chegar, a não ser para a elite brasileira. Pois foi isto que a Câmara dos Deputados aprovou na noite da terça-feira, 6, um projeto para a iniciativa privada furar a fila da vacinação contra a Covid-19.

Neste momento, os grandes laboratórios estão vendendo vacinas apenas para os governos. Permitir que a iniciativa privada entre na competição com o governo para adquirir imunizantes prejudicará as pessoas dos grupos prioritários e os mais pobres. Para o SUS, vacinas a conta-gotas. Para ricos e empresas, a farra da vacina. Apenas no Brasil isso será permitido. É uma chacota, um insulto com os brasileiros que mais precisam.

Como afirma o bem afirma o médico sanitarista, Drauzio Varella, sem o SUS, é a barbárie. A CNTS entende que é preciso unir forças sociais e políticas para defender o direito à saúde. A saúde universal não é apenas garantir que todos estejam contemplados, mas que todos tenham acesso aos cuidados quando precisam, onde quer que estejam.

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