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Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Subnotificação: país tem 33 mil internações a mais em 2020 por doenças respiratórias

Saúde

Mais de 90% dos testes deram negativo para gripes conhecidas; cerca de 20 mil casos estão sendo investigados pelo Ministério da Saúde.

Dados dos sistemas MonitoraCovid-19 e do InfoGripe, elaborados pela Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, apontam para a subnotificação de casos de Covid-19 no Brasil. A conclusão foi feita por conta do aumento expressivo do número de internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave – SRAG e a grande quantidade de testes negativos para gripes já conhecidas.

Até 4 de abril, ou seja, a 14º semana epidemiológica do ano, foram 34.594 internações por SRAG. A média foi cerca de 10 vezes maior do que em 2010, quando foram registradas 3,9 mil internações. E maior até mesmo do que em 2016, quando houve um surto de H1N1, resultando em 10,4 mil internações.

Em 2019, até a 14º semana epidemiológica, foram 1.152 hospitalizações. Neste ano, no entanto, 91% dos testes realizados para gripes já conhecidas apresentaram resultado negativo, o que indica que a maioria dos casos pode estar relacionada à Covid-19.

No último boletim divulgado, a Fiocruz aponta que até o dia 21 de abril, já foram reportados 37.294 casos de SRAG no ano, sendo 8.532 com resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 11.444 negativos, e ao menos 14.304 aguardando resultado. Dentre os positivos, 9% foram confirmados como Influenza A, 4% Influenza B, 5% vírus sincicial respiratório e 73% como Sars-CoV-2 (Covid-19).

Outro fator que corrobora com a suspeita de subnotificação é que, de acordo com o Ministério da Saúde, ainda há cerca de 20 mil casos de SRAG em investigação, para além do número alto de casos confirmados do novo coronavírus.

Óbitos – A plataforma MonitoraCovid-19 sistematiza os casos de contaminação e óbitos por Covid-19. No Brasil, o registro de contaminação está dobrando em cerca de oito dias, enquanto o de óbitos, em média aproximada de cinco dias: 13.717 casos no dia 7 de abril, para 28.320 no dia 15 de abril; e 486 mortes até o dia 05 de abril, e em apenas cinco dias, saltaram para 1.056 óbitos.

De acordo com a nota técnica da fundação, “existe controvérsia com relação ao número total de casos, sobretudo na comparação entre países. Isso se dá por conta da heterogeneidade de realização de exames para confirmação de casos”. Conforme a testagem se intensifica, o número cresce.

No entanto, se o registro por contaminação é impreciso, “a comparação entre óbitos é mais verdadeira, uma vez que é um dado mais inequívoco”, porque há mais testagem. Como colocado acima, o Brasil está entre os países que dobra o número de mortes no menor período: cinco dias. No Equador e nos Estados Unidos, que também figuram cenários assustadores da crise causada pela pandemia, os óbitos estão dobrando a cada seis dias. Na Itália e na Espanha, oito dias.

Idosos x crianças – O estudo da Fiocruz foi motivado pelo rápido aumento dos casos sem identificação da doença. Ao analisar os números, os pesquisadores viram que havia uma mudança no perfil dos pacientes. As gripes comuns, registradas nos anos anteriores, afetavam principalmente crianças, com menos de 2 anos.

Já os casos novos são predominantemente de idosos e pessoas com comorbidades, como diabetes, uma característica da Covid-19. Das internações por SRAG em 2020, 36% foram de idosos, com mais de 60 anos. Já os pacientes com menos de 2 anos responderam por apenas 10% dos casos.

Tulio Batista Franco, sanitarista da Universidade Federal Fluminense, diz que esse fenômeno da subnotificação é visível no país todo. “Está muito acima. Como não tem testagem, tem a síndrome respiratória aguda grave, mas a verdade é que a maioria está morrendo de Covid-19”, afirma.

O especialista diz que, como não há a testagem adequada, “cada um fala o que quer. Não se está conseguindo dar o diagnóstico correto para as pessoas. Você não tem o teste para se contrapor ao número do governo”.

 

Sérgio Cimerman, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, também diz que o número não é normal. “É por causa da circulação da Covid-19. Porque o coronavírus é mais transmissível e mais contagioso. A gente achava que o H1N1 era muito mais agressivo, e muito pelo contrário”.

Para Patrícia Canto, pneumologista da Escola Nacional de Saúde Pública, com notificação baixa, a estimativa da mortalidade da doença também não é real. “Você só está testando os casos graves. Se você tivesse o total, alteraria. Então, com certeza, a taxa de mortalidade cairia se você tivesse uma testagem maior, porque você aumenta o número de pessoas infectadas”.

Sem saber o número real de infectados, o planejamento dos sistemas de saúde fica prejudicado, segundo ela. “Se conseguíssemos avaliar que, em determinados locais, você está com um número maior de casos, você drena melhor os seus sistemas de vigilância e de ações de serviços de saúde e até de equipagem dos dispositivos hospitalares. Você pode enviar médicos. Você acaba sabendo isso pela gravidade dos casos. Se tivéssemos uma dosagem mais ampla, uma testagem mais ampla, talvez pudéssemos antecipar à gravidade dos casos e aí conseguiríamos manejar melhor a questão de leitos, de respiradores ou mesmo de profissionais de saúde”.

O que preocupa, segundo a especialista, é o impacto desse quadro. “O problema é, em pouco tempo, os sistemas ficarem sobrecarregados e não termos leitos de UTI e respiradores/ventiladores mecânicos para o grande número de pacientes que se avolumam ao mesmo tempo. Os serviços são estruturados para a população em situações normais, não para situações de pandemia, como estamos vivendo agora. E não podemos esquecer que as outras situações continuam acontecendo. As pessoas ainda infartam, ainda têm apendicite, ainda têm infecções bacterianas. E agora estamos começando a época do ano em que temos as doenças respiratórias sendo mais prevalentes também. Então, vamos ter sobreposição da pandemia, que, por si só, já esgota o nosso sistema de saúde”, alerta.

Fonte: Com Brasil de Fato e Bem Estar
CNTS

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