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Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Subnotificação faz com que dados oficiais não retratem a realidade

Coronavírus

Brasil é um dos países com mais casos do novo coronavírus que menos testa sua população. Ministro Nelson Teich fala em aplicar exames em amostras para conhecer alcance da doença.

Dois meses após o registro do primeiro caso do novo coronavírus no Brasil, em 25 de fevereiro, a situação da pandemia no país ainda é desconhecida pelas autoridades sanitárias. Esse quadro, que dificulta a elaboração de planos de combate à doença, resulta da falta de testes que confirmem a infecção em suspeitos de terem contraído o vírus.

Até meados de março, a prioridade no país era testar pessoas com sintomas da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, que tinham viajado para locais onde o coronavírus circulava. No dia 20 daquele mês, o governo reconheceu que já havia transmissão comunitária, ou seja, a contaminação estava ocorrendo dentro do Brasil sem que se conhecesse o transmissor. Devido à falta de testes por conta da dificuldade em comprá-los no exterior, eles continuaram sendo aplicados apenas em pacientes em estado grave.

A testagem em massa foi uma das principais recomendações feitas pelo diretor-geral da Organização Mundial de Saúde – OMS, Tedros Adhanom. Conhecer um número mais preciso de doentes, a evolução da epidemia e a taxa de mortalidade permite que os governos coordenem medidas de atendimento, preparando os hospitais, e de isolamento social, considerada a mais eficaz na contenção da Covid-19. Não há vacinas ou remédios com eficácia comprovada contra o vírus.

Na sexta-feira, 24, o Brasil já era o 11º país com mais números de casos confirmados da doença: 52.995. Ao todo, 3.670 pessoas tinham morrido até a mesma data. Nessa relação de países com maior número de registros, o Brasil é o que menos testou sua população, segundo dados compilados pelo site Worldometer. Os dados da China, que aparece como o nono país com mais doentes, não são conhecidos.

1.373 testes realizados por milhão de habitantes era a taxa do Brasil em 24 de abril, segundo dados compilados pelo site Worldometer. 27.164 testes por milhão de habitantes era a taxa da Itália na mesma data, de acordo com o Worldometer.

O Brasil realizou menos testes do que alguns de seus vizinhos, como Chile (7.442 por milhão de habitantes), Uruguai (4.359) e Colômbia (1.405). Supera, entretanto, a Argentina (988).

O plano de testagem do país – Na quarta-feira, 22, em sua primeira entrevista como ministro da Saúde, Nelson Teich afirmou que o Brasil era um dos países com melhor desempenho no combate à doença, o que o fez ser criticado por gestores e técnicos do próprio órgão por ignorar a subnotificação. “O Brasil hoje é um dos países que melhor performa em relação à covid. Se você analisar mortos por milhão de pessoas, o número do Brasil é de 8,17. A Alemanha tem 15. A Itália, 135. Espanha, 255. Reino Unido, 90. E EUA, 29”, disse.

A informação é imprecisa porque, com baixa testagem, o número do Brasil é irreal e não pode ser comparado com países que testaram mais e, com isso, identificaram mais mortes.

Na sexta-feira, Teich reconheceu em uma publicação no Twitter que existe subnotificação de dados no Brasil, especialmente de casos leves, em que o paciente muitas vezes nem procura atendimento. “O Ministério da Saúde está planejando uma nova forma de testagem do coronavírus para a população. Nosso objetivo é entender como o vírus está se espalhando em cada região do Brasil e realizar ações estratégicas com base em informação”, escreveu, sem detalhar o plano.

O planejamento, porém, não será uma testagem em massa, que o próprio ministro já disse ser impossível de ser realizada num país com mais de 210 milhões de pessoas. Ele já indicou em entrevista que a estratégia deve ser testar amostras que reflitam toda a população. O que preocupa gestores e profissionais da saúde, porém, é que o ministro ainda fala em estudar a pandemia num contexto em que sistemas de saúde regionais já dão sinais de colapso no atendimento.

Segundo Teich, o governo irá comprar 46,2 milhões de testes, quase o dobro que havia sido anunciado pelo ministro anterior, Luiz Henrique Mandetta. Os exames só serão entregues, porém, num prazo de três meses. Até agora, foram distribuídos apenas 2,5 milhões de exames.

Estudo da Fiocruz – Um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz com dados compilados até 4 de abril mostra que as internações em 2020 no Brasil por SRAG – Síndrome Respiratória Aguda Grave são cerca de oito vezes mais do que a média observada no mesmo período desde 2010.

A SRAG é uma doença respiratória causada por qualquer tipo de vírus que leva o paciente à internação. A Fiocruz compilou na plataforma Infogripe os dados do Ministério da Saúde recebidos dos hospitais.

Em 2020, até 4 de abril, foram 33,5 mil internações pela doença no país. A média no mesmo intervalo do ano desde 2010 é de 3.900 casos. Segundo os pesquisadores, essa explosão de internações indica subnotificação de casos, ou seja, há mais pessoas ocupando os leitos de internação com a Covid-19 do que o que é registrado oficialmente pelos estados. Isso se deve ao fato de que nem todo mundo foi testado.

Os motivos para que os pesquisadores desconfiem que o crescimento das internações foram causados pelo Sars-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19, são o aumento das internações fora de época, o percentual mais alto de testes negativos para outras gripes e o fato de os internados serem, em maioria, idosos, que sofrem mais com o vírus.

Amostras no Rio Grande do Sul – A primeira fase de uma pesquisa coordenada pela Ufpel – Universidade Federal de Pelotas mostrou também que o número de casos no Rio Grande do Sul pode ser 15 vezes maior do que o confirmado oficialmente.

Batizada de Epicovid19, a pesquisa testou 4.189 pessoas em nove cidades do estado, entre 11 e 13 de abril. Duas pessoas tinham a doença, o que representou 0,05% da amostra. Estimou-se, portanto, que existia um infectado no estado para cada 2.000 habitantes.

Como o Rio Grande do Sul tem 11,3 milhões de habitantes, o número de infectados seria de 5.650 pessoas. Os dados oficiais apontavam, porém, apenas 384 casos na época.

Para monitorar a evolução da epidemia, mais três etapas de testes serão feitas, em intervalos de 15 dias. A pedido do Ministério da Saúde, a Ufpel irá estender esse levantamento para todo o país, o que ajudaria o governo federal a ter uma ideia mais precisa do alcance na doença.

Aumento de sepultamentos – Algumas cidades mais atingidas pela epidemia também tiveram um aumento significativo no número de enterros. Em Manaus, que apresenta colapso no sistema de saúde e já não consegue atender todos os casos graves, apenas na quarta-feira, 22, foram realizados 120 sepultamentos. A média diária, antes da epidemia, era de 30 por dia.

Sem poder realizar necropsia para definir a causa da morte, por causa do risco de contaminação dos profissionais, muitos estão sendo enterrados com causa indefinida ou como suspeita de Covid-19.

Das 120 mortes em Manaus, segundo reportagem publicada pelo site da BBC Brasil, apenas sete foram confirmadas tendo como causa o novo coronavírus. Cerca de 80 fugiam da média diária e não tinha causa conhecida, o que sugere subnotificação também de mortos. Sem vaga nas UTIs, 23 desse total morreram em casa.

Entrave nas análises – Mesmo que o país aplicasse rapidamente os testes prometidos pelo Ministério da Saúde, a impossibilidade de acompanhar a situação da pandemia em tempo real persistiria pela dificuldade dos laboratórios de processar as amostras num curto espaço de tempo.

Muitos testes precisam de três etapas de reação (com produtos químicos) e todo o processo demora em torno de quatro horas. “Estamos com uma limitação no Brasil de laboratórios suficientes para dar conta da testagem. A capacidade está bastante aquém do necessário”, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo o diretor-presidente do IBMP – Instituto de Biologia Molecular do Paraná, Pedro Barbosa.

A rede Data, por exemplo, contratada pelo Ministério da Saúde, só consegue analisar 30 mil amostras por dia. É por isso que, na contagem oficial, os dados contabilizados num dia se referem a casos da doença e mortes que ocorreram dias antes.

Na quinta-feira, 23, por exemplo, o balanço do Ministério da Saúde informou 407 novas mortes registradas naquele dia. Desse total, 112 haviam ocorrido nos três dias anteriores. As outras 295 aconteceram antes disso, o que revelava um atraso nas confirmações.

Fonte: Nexo Jornal
CNTS

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