11
Foto: Unsplash

Ser negro no Brasil é sinônimo de luta

Brasil

Protagonismo na política, oportunidades na educação e no mercado de trabalho, nunca houve tantas formulações na busca da superação do histórico problema da discriminação no país

Em 13 de maio de 1888, o Brasil encerrava uma das páginas mais sombrias de sua história, o período escravocrata. A partir desse marco histórico, o povo negro se deparou com outra luta, ainda mais árdua: a de conquistar reconhecimento e igualdade social. Após 130 anos da aprovação da Lei Áurea, os movimentos seguem batalhando contra o racismo do dia a dia e a desigualdade na sociedade brasileira. Os números provam essa realidade. No Brasil de hoje, as parcas políticas de reparação não conseguiram restituir a dignidade humana para grande parte da população negra. Os negros ainda são os que mais morrem por armas de fogo, são os que mais sofrem com o desemprego, são os que menos têm acesso à educação e à saúde de qualidade.

Porém, mesmo que a abolição da escravatura não tenha sido suficiente para esta conquista libertária, os negros têm conseguido resultados positivos por conta do ativismo e mobilizações. Resistiram a todos os desprezos contra sua raça, suas crenças, sua religiosidade, sua cultura, sua arte, sua estética, sua dignidade e sua desumanização.

Foi por conta da resistência, que a população negra conseguiu maior acesso à universidade. O percentual de alunos quase dobrou em 10 anos: em 2005, um ano após a implementação de ações afirmativas, apenas 5,5% dos jovens pretos ou pardos de 18 a 24 anos frequentavam uma faculdade. Em 2015, 12,8% dos negros na mesma faixa etária estavam matriculados no ensino superior.

Protagonismo – Na mídia, as pessoas negras também vêm conquistando seu espaço. Telejornais vêm enriquecendo seu quadro de funcionários com a contratação de jornalistas negros.

Nas telenovelas, comerciais e séries, negras e negros estão começando a se fazerem representar por personagens que os valorizem. Ainda que vagarosamente, não cabe mais apenas aos negros os papéis de coadjuvantes minúsculos dentro de toda uma obra. Também suas personagens assumem outras profissões além daquelas consideradas operacionais.

Com grande influência da Black Music norte americana, a música negra no Brasil vem ganhando destaque, sendo que a própria música da periferia está sendo mais valorizada. A cultura do povo negro, sua religião e danças também estão sendo focadas na mídia com o objetivo de acabar com o preconceito existente.

No mercado de trabalho, a ascensão do povo negro está acontecendo, mesmo que de forma lenta. Eles já representam maioria no setor empreendedor. Entre 2002 e 2012, 50% dos micro e pequenos empresários se autodeclararam negros ou pardos, 49% se autoafirmaram brancos.

Representação – Na política, o número de deputados negros cresceu quase 5% na eleição de 2018 na comparação com 2014. Dos 513 deputados eleitos, 385 se autodeclaram brancos (75%); 104 se reconhecem como pardos (20,27%); 21 se declaram pretos (4,09%); 2 amarelos (0,389%); e 1 indígena (0,19%).

Além disso, a dívida que o Brasil tem com os negros também determinou marcos jurídicos como a lei que criminaliza o racismo, a injúria racial, além da igualdade racial e a lei das domésticas.

Em suma, vivemos um momento inédito na história do Brasil. Nunca se viram tantas formulações, de cunho político, de natureza acadêmica, de reverberação econômica, de extensa dimensão cultural, em torno da busca pela superação do racismo – nunca é demais lembrar que, até a década de 1990, o discurso hegemônico era o de não haver racismo em nosso país –, e isso gera desdobramentos sociopolíticos poderosos.

Em linhas gerais, pode-se afirmar que, nos dias hoje, ser negro no Brasil é estar apto a um enfrentamento aberto, no âmbito do discurso acadêmico, no âmbito da linguagem social, no âmbito da política, no âmbito do combate à criminalidade, como não era possível em tempos anteriores, contra visões conservadoras que, na sua ideologia, se sentem confortáveis com a afirmação de que lugar de negro é na excepcionalidade do bem-estar e continuar na constrangedora posição de figurante.

Identificação – Ser negro no Brasil de hoje é conseguir abandonar o desejo de fazer parte do clube do branco, é buscar uma identidade que lhe foi retirada, aniquilada sem piedade, no processo mercantil de tráfico de escravizados através do oceano, prática admitida pelo Estado até as últimas décadas do século 19.

É sabido e notório que o negro construiu nas costas e entregou para a nação a oitava economia do planeta, a quinta maior extensão geográfica do mundo e a maior nação africana fora da África. Como pode se ver à exaustão nos registros de todos os tempos, seguramente, o negro não é o malandro dessa história, nem o quilombola de sete arrobas que, de forma desrespeitosa, preconceituosa e discriminatória andam afirmando por aí.

O fato é que, ao final, a desenfreada intolerância, a altíssima voltagem da discriminação, a banalidade da agressão diária e o desbragado tratamento de cidadão de segunda classe que é conferido aos negros de forma intencionada e naturalizada na maioria dos espaços públicos e privados, todos os dias, são o combustível e a energia que os movem, os orientam e os convocam nesse Dia Nacional da Consciência Negra.

E é para relembrar essa luta diária dos corpos negros – a carne mais barata do mercado, como diria Elza Soares –, que nesse dia 20 de novembro tantas festas e manifestações negras tomam conta do país. A luta de Zumbi dos Palmares segue viva. Ainda hoje, 323 anos depois de sua morte.

Fonte: Com informações de Geledes, Zero Hora, Folha de São Paulo e Exame)
CNTS

Deixe sua opinião

Enviando seu comentário...
Houve um erro ao publicar seu comentário, por favor, tente novamente.
Por favor, confirme que você não é um robô.
Robô detectado. O comentário não pôde ser enviado.
Obrigado por seu comentário. Sua mensagem foi enviada para aprovação e estará disponível em breve.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Siga a CNTS
nas Redes Sociais