Pobreza extrema cresce no Brasil e país corre o risco de voltar ao mapa da fome

Enquanto quase 30% da renda do Brasil estão nas mãos de apenas 1% dos habitantes do país, a maior concentração do tipo no mundo, 52,2 milhões de brasileiros, 25,4% da população, sofrem com a pobreza extrema. Levantamento do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade – Iets, divulgado na sexta-feira, 15, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, revelou que após uma década de queda, a pobreza voltou a crescer no Brasil por conta das políticas ultraliberais do governo de Michel Temer e a recessão econômica. São milhões de brasileiros vivendo com renda inferior a um quarto do salário mínimo por mês, o equivalente a R$ 387,07. A classificação é usada pelo Banco Mundial para verificar a quantidade de pessoas nos países da América Latina que vivem nessas condições. Na pobreza extrema – rendimento domiciliar per capita mensal de R$ 133,72 ou US$ 1,9 diários – vivem 13,4 milhões de pessoas ou 6,5% da população brasileira.

O instituto identificou que a pobreza atinge mais fortemente crianças e adolescentes, homens e mulheres pretas ou pardas e famílias formadas por mulheres com filhos e sem companheiro. Os 52 milhões de brasileiros em condições de pobreza vivem em famílias formadas, em média, por 4,6 pessoas. De acordo com o estudo, 42% das crianças de 0 a 14 anos ou 17,8 milhões vivem na pobreza, assim como 33% dos homens pretos ou pardos e 34% das mulheres dessa mesma cor, enquanto atinge apenas 15% dos homens e mulheres brancos.

Essas famílias também vivem em moradias precárias e têm menor acesso a bens. Apenas 40% das pessoas em situação de pobreza têm acesso simultâneo a coleta de lixo, tratamento de esgoto e abastecimento de água, enquanto que para o total da população esse grupo chega a 62%.

Enquanto 64% da população brasileira tinham acesso a tratamento de esgoto no ano passado, esse serviço não chegava à metade – 42,2% da população abaixo da linha de US$ 5,5 por dia. O abastecimento de água chega à casa de 85% de toda a população, mas a apenas 73% do grupo que vive na pobreza, assim como a coleta de lixo que chega ao lar de 90% do total de brasileiros e a apenas 76% das pessoas em situação de pobreza.

O instituto também identificou que um quarto desse grupo vivia em lar com ao menos uma deficiência nas condições de moradia, como ausência de banheiro para uso exclusivo, paredes externas construídas com materiais não duráveis, adensamento de mais de três moradores por dormitório ou valor declarado do aluguel igual ou superior a 30% da renda da família. Com relação ao total da população, esse problema atinge somente 12%.

Mapa da Fome – Além disso, com o abandono da agricultura familiar e o fim da Política de Valorização do Salário Mínimo, juntamente com o descaso com o Bolsa família e outros programas sociais de distribuição de renda, pode levar o Brasil a fazer parte do Mapa da Fome da FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.

Para sair do mapa, o país deve ter menos de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendado. O Brasil permaneceu acima do índice de 5% até 2013. Em 2014, registrou 3% de população ingerindo menos calorias que o recomendado e saiu pela primeira vez das cores avermelhadas do mapa. No entanto, relatório elaborado por cerca de 20 entidades da sociedade civil e apresentado em julho de 2017, sobre o desempenho do Brasil no cumprimento dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU, traz um alerta: há risco de o país voltar ao próximo Mapa da Fome.

Francisco Menezes, responsável pelo relatório e pesquisador do Ibase – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, afirmou que o risco se deve a uma combinação de fatores, como alta do desemprego, avanço da pobreza, corte de beneficiários do Bolsa Família e o congelamento dos gastos públicos por até 20 anos. “A fome está muito associada à pobreza extrema, e temos preocupação sobre políticas de restrições orçamentárias que estão sendo implementadas. Em 2015 já foi bastante problemático. E agora, com medidas como a PEC que congelou os gastos por 20 anos, que consideramos perigosa em termos de enfrentamento da desigualdade social e da pobreza”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, a situação de desemprego, que se agravou muito, também é ameaçadora. Não só pelos 14 milhões desempregados, mas também sobre quem ele está atingindo – as populações mais pobres são as mais prejudicadas nesse quadro. Além disso, o governo cortou 1,1 milhão de benefícios do Bolsa Família – alegando irregularidades. Num quadro de desemprego, esse nível de redução agrava a situação social.

Distribuição de renda – Enquanto milhares sobrevivem com pouco, apenas 1% da população brasileira detém 28% da riqueza do país, ou seja, 1,4 milhão de pessoas. Segundo os dados coletados pelo estudo World Inequality Report, os milionários brasileiros ficaram à frente dos milionários do Oriente Médio, que aparecem com 26,3% da renda da região. Os dados apontam uma desigualdade social maior do que a constatada nas regiões do Oriente Médio, Europa Ocidental, Estados Unidos e África do Sul. Segundo o levantamento, nem a crise financeira de 2008 foi capaz de afetar a camada mais rica da população brasileira. (Com Valor Econômico, G1, El País, O Globo e Jornal Nexo)

 

 

 






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