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Foto: Raphael Alves/EFE

País tem mais de mil cidades com dificuldades no abastecimento de oxigênio

Colapso da Saúde

Levantamento do Conasems revela que se a curva de casos de Covid-19 mantiver em alta e houver novos entraves junto a fornecedores, haverá risco de desabastecimento nos hospitais públicos nos próximos dias. O desabastecimento também pode acontecer na rede privada.

Gestores de saúde de ao menos 1.068 municípios relataram, em um levantamento, preocupação sobre o estoque de cilindros de oxigênio e até mesmo risco de desabastecimento nos próximos dias se a curva de casos de Covid-19 se mantiver em alta e houver novos entraves junto a fornecedores.

Os dados são de balanço feito pelo Conasems, conselho que reúne secretários municipais de Saúde, e obtido pelo jornal Folha de S.Paulo. Segundo o órgão, o total de municípios com dificuldades pode ser ainda maior, já que apenas uma parte respondeu ao questionário. Ao todo, gestores – como secretários, representantes de hospitais e de outras unidades de saúde que atendem pacientes de Covid – de 2.411 municípios enviaram dados.

O levantamento começou a ser feito nas duas últimas semanas de março, e terminou na terça-feira, 6. Neste sentido, o balanço traz alguns alertas sobre a situação dos estoques e impasses enfrentados pelos municípios. O principal é a dependência de cilindros de oxigênio, modelo visto como de maior dificuldade de fornecimento – e apontado por 87% dos municípios como principal estrutura de armazenamento. Os 1.068 municípios informaram haver risco de desabastecimento em ao menos uma unidade em até dez dias.

Segundo a assessora técnica do Conselho, Blenda Pereira, isso indicaria que haveria possibilidade, em parte das cidades, de falta já nos próximos dias, já que algumas respostas vieram ainda no início do balanço. Em outras, o alerta persiste. “Vemos que é um problema nacional”, afirmou.

Recentemente, no entanto, parte dos estados e o Ministério da Saúde adotaram medidas emergenciais para diminuir o risco de uma possível falta, como a distribuição de cilindros extras, o que amenizou a situação.

“Mas, como o número de pacientes ainda cresce, há risco”, diz Mauro Junqueira, secretário-executivo do Conasems. Segundo ele, ações recentes parecem ter ajudado a evitar um problema mais grave. “Ainda é um cenário preocupante, que temos de monitorar”, afirma.

Avaliação semelhante tem Geraldo Reple Sobrinho, secretário de Saúde de São Bernardo do Campo, no ABC paulista e presidente do Cosems-SP, que reúne gestores municipais do estado. “Já melhorou, mas ainda não está equacionado. Ainda há algumas regiões em situação crítica”, afirma ele, segundo quem o último balanço feito pela entidade junto aos municípios apontava déficit de 2.578 cilindros.

“São Paulo tem uma grande capacidade de produção. O problema é a logística. Com aumento dos casos, as empresas precisam trocar os cilindros várias vezes. Imagina fazer isso a uma cidade a mais de 50km [de distância]”, diz.

O problema se repete em outros estados. “Consumimos 300% a mais do que o normal. O ministério trouxe um carregamento de 340 cilindros, que distribuímos para as cidades em situação mais delicada. Mas a preocupação persiste, porque Mato Grosso tem território grande, e os municípios não conseguem ter estoque. Tem cidades a quase 800 km da distribuidora”, afirma Marco Antônio Felipe, presidente do Cosems-MT.

Secretário de Saúde de Guarantã do Norte/MT, ele diz também sofrer com a distância – e com o impacto do aumento de casos. “Temos um hospital municipal com demanda, e estamos a 230 km do primeiro posto de abastecimento”, relata.

O levantamento do Conasems foi enviado a todos os gestores para investigar a situação também em municípios sem leitos para Covid, mas que têm feito atendimentos por meio de unidades de saúde ou intermediárias. As dificuldades foram relatadas em todos os estados, incluindo em cidades menores com atendimento apenas nestes locais. Como justificativa, diferentes cidades informaram alta demanda e necessidade de atender pacientes graves em salas adaptadas até que haja transferência para hospitais da região.

“Tivemos que montar alguns leitos em unidades básicas de saúde. E, do dia para a noite, nos vimos tendo que ter 10 a 20 cilindros à disposição”, relata Felipe, do Cosems-MT, sobre a situação em cidades da região.

Em Capistrano/CE, com 17 mil habitantes, por exemplo, não há UTI e antes da pandemia havia cilindros de oxigênio para manter seus dois leitos de internação. Atualmente, são 15 internados, todos com necessidade de oxigênio. Erika Medeiros, responsável por um hospital de pequeno porte na cidade cearense, disse à pesquisa que há o risco de o município “colapsar a qualquer momento”. Sem cilindros, a prefeitura não tem estoque e diariamente busca oxigênio em Mossoró/RN, a 260 km, e em Fortaleza, a 90 km.

O balanço do Conselho questionou também a falta de outros insumos. Os mais frequentes em baixo estoque foram luvas, máscaras e aventais. “Isso nos preocupou. Além da escassez de oxigênio, o abastecimento de EPIs [equipamentos de proteção individual],também pode estar prejudicado [em alguns locais]”, diz Pereira, do Conasems.

Hospitais particulares dizem que oxigênio e anestésico acabam em uma semana – Com UTIs públicas e privadas lotadas, sete em cada dez hospitais de excelência do país enfrentam problemas com abastecimento de oxigênio e anestésicos para tratar pacientes com Covid-19 e correm o risco de ver seus estoques acabarem nos próximos dias.

A constatação é de um levantamento da Associação Nacional de Hospitais Privados – Anahp com 88 instituições de ponta de todas as regiões do país, feito na terça, 6. Cerca de 80% delas dizem que só têm o abastecimento garantido por uma semana ou menos.

Em relação ao oxigênio, 11 hospitais dizem que possuem o suprimento para menos de cinco dias. Eles estão localizados em São Paulo (SP), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Blumenau (SC), Belo Horizonte (MG), Cuiabá (MT), João Pessoa (PB) e Belém (PA).

Quanto aos anestésicos, a situação é ainda pior: 23 hospitais relatam que estarão com os estoques zerados até a próxima sexta. Além das cidades acima, instituições de Atibaia (SP), Bento Gonçalves (RS), Brasília (DF), Niterói (RJ), Cariacica (ES), Serra (ES) e Ipatinga (MG) enfrentam o problema.

Quanto ao “kit intubação”, conjunto de anestésicos, sedativos e bloqueadores musculares, 27 hospitais afirmam que vivem uma situação crítica, com os medicamentos também acabando nesta semana. Só 17% dos hospitais dizem ter reserva para mais de duas semanas.

Fonte: Folha de S. Paulo
CNTS

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