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Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

O plano de testes em massa no Brasil depois de meses no escuro

Coronavírus

Segundo mais afetado pelo coronavírus, país testou dez vezes menos que Reino Unido e Rússia. OMS, que decretou estado de pandemia em 11 de março, aconselha uso de exames em larga escala para reabertura.

O ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuello, afirmou a parlamentares na terça-feira, 23, que o governo federal prepara uma estratégia de testagem em massa dos brasileiros. O Brasil é um dos países mais afetados pela pandemia do novo coronavírus que menos aplicou, proporcionalmente, testes em sua população.

Identificar os doentes por meio de exames e quebrar a cadeia de transmissão do vírus, isolando doentes por ao menos 14 dias e rastreando seus contatos, é uma das mais importantes medidas de controle da doença. É também um dos critérios da Organização Mundial de Saúde – OMS para que os países possam reabrir com segurança. A pandemia foi decretada oficialmente em 11 de março de 2020.

Na segunda-feira, 22, o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, disse que as proporções de resultados positivos dos testes aplicados no Brasil apontam para baixa testagem no país e para número subestimado de doentes. Ao todo, 31% dos exames aplicados dão resultados positivos no Brasil. “Nos países que aplicam grande número de testes, a porcentagem de positivos fica perto de 5%”, afirmou.

Uma pesquisa do Imperial College, de Londres, estimou que o Brasil registrou oficialmente apenas 34% de todos os casos possíveis de infecção da doença. O número real de contaminados pode, portanto, ser o triplo do que as estatísticas dos governos estaduais mostram.

A intenção do Ministério da Saúde, divulgada por Pazuello, é aplicar os exames em 50 milhões de pessoas, o equivalente a 24% da população. Na quarta-feira, 24, porém, o Ministério da Saúde falou em 46 milhões de testes, número que já havia sido anunciado pelo ex-ministro Nelson Teich. Metade dos testes será do tipo rápido, que identifica a presença de anticorpos contra o coronavírus no organismo, e a outra metade, de testes PCR, que mostram se a pessoa está infectada pelo Sars-CoV-2 no momento do exame.

A pasta vem tendo dificuldades em entregar os testes prometidos e em comprar mais unidades. O órgão anunciou que buscará adquirir novos tipos de exames, mais precisos. A meta para realizar toda a testagem, que era até dezembro, foi eliminada. A ideia é não ter mais um prazo para terminar a campanha.

O Brasil é o segundo país do mundo em número de casos e de mortes pela Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos. Entre os dez países mais afetados, o Brasil é o segundo que menos testa, atrás apenas da Índia. Segundo dados do site Worldometers, o Brasil já realizou 12.603 testes por 1 milhão de habitantes, número quase dez vezes menor do que países como o Reino Unido – 125.844 testes por 1 milhão de habitantes – e a Rússia – 122.001 pela mesma proporção da população.

Pazuello também defendeu a inclusão de diagnósticos clínicos na base de dados para que os governos tenham uma visão mais realista da evolução da doença no país. Esse tipo de diagnóstico é dado pelo médico com base no histórico do paciente de exposição ao vírus, sintomas da doença e exames como radiografias e tomografias. Os testes que identificam o coronavírus não seriam feitos, mas o paciente poderia, mesmo assim, ser diagnosticado com a doença.

Há cerca de 200 tipos de testes para a detecção do coronavírus registrados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Eles se dividem em dois tipos: os que usam sangue, soro ou plasma e os que analisam amostras de secreções do nariz e da garganta.

Tipos de testes – Sangue, soro ou plasma: Os chamados testes sorológicos revelam a partir de uma amostra de sangue se a pessoa já teve no passado contato com o vírus. Eles detectam a presença de anticorpos produzidos pelo próprio organismo em resposta à infecção. São dois tipos de anticorpos: o IgM, que é uma resposta inicial, e o IgG, que gradualmente vai substituindo o primeiro. Ele é o anticorpo que, em tese, cria imunidade. Como essa proteção natural do organismo leva cerca de 15 dias para se formar, os testes sorológicos são indicados a partir do décimo dia após o início dos sintomas. Na rede privada, esses testes custam de R$ 90 a R$ 380.

Secreções das vias respiratórias: Os testes PCR ou RT-PCR, também chamados de moleculares, diagnosticam a presença do vírus no organismo a partir de amostras de secreções do nariz ou da garganta coletadas por uma espécie de cotonete gigante – swab. São considerados o padrão-ouro, por serem mais precisos. A sigla, em inglês, significa transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase. Na amostra, a fita simples de RNA do vírus é detectada e transformada por enzimas numa dupla fita de DNA. Esse DNA é amplificado bilhões de vezes numa máquina com ciclos de mudança de temperatura, o que facilita a identificação do material genético do vírus por emissão de luz para a confirmação do caso. É realizado do terceiro ao décimo dia a partir do aparecimento dos sintomas. Gratuito na rede público, pode ser feito a pedido médico em hospitais particulares por um valor que varia de R$ 150 a R$ 470.

Os problemas dos testes – Apesar de os testes PCR serem mais confiáveis, há obstáculos para seu uso em larga escala. Eles exigem laboratórios equipados e com alto poder de processamento, além de profissionais capacitados. Por isso, são caros e mais demorados no diagnóstico, o que pode levar até dois dias para acontecer. As amostras ainda precisam ser acondicionadas em refrigeradores a -20ºC ou em freezers a -70ºC.

Hospitais do Sistema Único de Saúde – SUS têm recorrido a laboratórios privados contratados pelas prefeituras para processar os testes PCR, a um preço que varia de R$ 150 a R$ 203 por exame.

Reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na quarta-feira, 24, mostrou que a rede estadual criada para realizar exames da Covid-19 está ociosa. Segundo as secretarias de saúde, a situação se deve a contratos fechados com os laboratórios privados no início da pandemia para desafogar a fila de exames represados.

Já os testes sorológicos, que usam amostras de sangue, podem em muitos casos dar o diagnóstico num prazo de 10 a 30 minutos — por isso são chamados de testes rápidos. Eles têm como vantagem serem mais baratos, mas seu uso em massa é questionado por poderem apresentar, a depender da marca, 15% de erro em resultados negativos e de 1% a 5% em resultados positivos.

As alternativas – Como alternativa aos testes usados pelos governos, hospitais e laboratórios criaram novos tipos de exames. O Hospital Sírio-Libanês lançou em parceria com o laboratório brasileiro Mendelics, em junho, um tipo de teste molecular que usa a saliva do paciente e demora apenas uma hora para dar o resultado. Seu custo é de R$ 95.

O Hospital Israelita Albert Einstein patenteou em maio um teste que coleta secreções por meio de um swab, mas que permite um processamento das amostras numa velocidade 16 vezes maior do que o PCR. Seu custo divulgado inicialmente é de R$ 250, mas o hospital analisava o valor.

No final de maio, o laboratório Fleury também desenvolveu um teste que usa a técnica de espectrometria de massa, que identifica proteínas do Sars-CoV-2 por meio da medida de massa e estrutura. O método também usa coleta de secreção do nariz ou garganta, mas as amostras não precisam ser mantidas em temperaturas negativas. O diagnóstico pode sair em três horas, segundo o laboratório, a um custo de R$ 180.

Fonte: Nexo Jornal
CNTS

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