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O novo trabalhador sem classe

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* Rui Fernando Correia

“Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!” Em um grito expresso em seu Manifesto, Karl Marx conclama a unidade do proletariado constituindo as definições teóricas e básicas da luta de classes. Entretanto, existe um perigoso aspecto destrutivo sendo gestado e aplicado nas organizações empresariais por meio da nova era da economia tecnológica e da informação que pode acabar com o reconhecimento das classes. O trabalho imaterial com seus fetiches de uma burocracia flexível que propicia as cooperações entre trabalhadores e apropriação dos seus intelectos para o processo capitalista. Há algum tempo Tragtenberg (1974, 1980) já apontava a utilização de técnicas administrativas do mainstream das teorias da organização como ferramentas de harmonia entre capital e trabalho. Em perspectiva ideológica, essas técnicas buscam a mediação dos conflitos políticos impossibilitando que os mesmos sejam equilibrados como uma possibilidade de partilha de poder (De Paula, 2002). Para compreender esse processo segue uma breve reflexão sobre essa questão importante que dificulta a construção política do presente e de um recente futuro.

De forma sumarizada, as mudanças dos paradigmas econômicos ocorreram em três momentos distintos: (1) em um primeiro momento a atividade agrícola e o extrativismo de matérias-primas dominaram a economia; (2) num segundo momento, no qual a indústria fabril de bens duráveis obteve uma privilegiada posição; (3) em nosso paradigma atual, a oferta de serviços e o manuseio de informações estão no cerne da produção econômica. A transição do segundo paradigma para o terceiro reflete o fim da era da indústria para a dominação dos serviços e da informação, em uma perspectiva do processo de pós-modernização econômica, ou melhor, de informatização da economia (Prado, 2003). Os resultados implicados principalmente nesse terceiro paradigma resultam no chamado “trabalho imaterial”.

O trabalho imaterial – Como argumentam Negri e Hardt (2001), a nova fase do capitalismo é a representação global da ditadura do capital financeiro. Em outras palavras, essa fase é baseada em uma formação reflexiva, pós-moderna, com formação publicitária da vontade, produção de conhecimento e cultura como negócio, subsunção do trabalho ao capital, de maneira formal e intelectual.

A subsunção formal é um tipo de subordinação que nasce do fato de que os trabalhadores vendem sua força de trabalho para os representantes do capital por não deterem a propriedade dos sistemas de produção, como compreende o capitalismo como um todo (Marx, 1978). Isso resulta no processo do trabalho sendo organizado, conduzido pelos representantes do capitalismo com o objetivo de transformar o dinheiro aplicado no processo de produção em mais dinheiro. Como compreendem Hardt e Negri (2001), a subordinação da classe trabalhadora extrapola os processos de produção e passa para a reprodução da vida além das questões econômicas. Ou seja, o capitalista retira do trabalhador sua força de trabalho, pois é o único valor que possui (o valor de uso da força de trabalho). Não se pode controlar o tempo do trabalho da mesma forma, pois este passou a ser diferenciado qualitativamente. Essa mudança tornou o modo de trabalho diferenciado, pois o capital passou a comandar além do tempo de trabalho o tempo de não trabalho, ou seja, o tempo livre (Hardt; Negri, 2001).

Logo, o trabalho passa a ser compreendido como algo imaterial, pois possui aspectos comunicativos, afetivos e expressivos, em determinações de um fetiche (falsa consciência). Ou seja, existe a ideia de que a cooperação passou a ser imanente ao processo do trabalho, em que a força do capital passou a ser externa às relações de produção. A cooperação no trabalho não é mais uma imposição ou organizada de fora, como ocorria no paradigma industrial. Agora, no trabalho imaterial a cooperação é um resultado positivo e inerente ao trabalho (Prado, 2003).

A velha noção de que a força de trabalho se torna coerente apenas pelo capital fica em xeque, pois os poderes cooperativos da força de trabalho imaterial criam a possibilidade de se valorizarem. Em um primeiro momento, os trabalhadores com as suas capacidades intelectuais ainda precisam de outros trabalhadores com capacidades complementares para produzir valor. Mas essa cooperação entre trabalhadores não é fornecida obrigatoriamente pelo capital. Como argumenta Prado (2003), a potencialidade produtiva, a riqueza e criação de superávits social são possíveis por meio de uma interatividade cooperativa dentro de complexas redes linguísticas, de comunicação e afetivas. Portanto, em sua maior expressão das próprias energias criativas, o trabalho imaterial fornece um potencial de um tipo de “comunismo” espontâneo e elementar. Entretanto, essa ideia não passa de uma percepção do fetiche capitalista.

As burocracias flexíveis – A despeito da fetichiosa ideia de cooperação e liberdade, todas essas possibilidades são apropriadas pelo capital e aplicadas na confecção de sistemas automatizados. Essa possibilidade de dominar os processos naturais e artificiais, fruto da cooperação intelectual dos trabalhos que a ciência possibilita, está agora incorporada em algoritmos ou programas de computador. Estes são instalados no corpo das máquinas possibilitando uma inteligência artificial (Hardt; Negri, 2001).

A consequência é natural do processo produtivo que vai eliminando os trabalhadores, pouco a pouco. Ainda, cria uma nova forma de vigilância sobre o trabalhador em todos os momentos, pois este passa a pôr em prática conhecimentos exigidos para além do tempo de trabalho. Esses conhecimentos científicos, que inicialmente se encontram no intelecto dos trabalhadores de forma descentralizada, passam a ser organizados por meio de redes e em tecnologias próprias, com acesso e diligência do capital (Hardt; Negri, 2001).

Em especial, nesse processo do capital o trabalhador passa a ser controlado não só pelo trabalho e pelo consumo, mas também como político, religioso, profissional, entre outros papéis que desempenha. Ou seja, a busca é por controlar o trabalhador em sua totalidade (Prado, 2003). Esse é resultado do domínio e controle do capital sobre os processos produtos do conhecimento científico e do conhecimento tecnológico, seja por meio dos processos formais de pesquisa dentro de instituições como universidades e centros de investigação e controle de verbas de pesquisa. O que coloca em evidência o papel da universidade, principalmente da pública, para o capital. Além das ações instituidoras de subjetividade que possibilitam a formação e transformação de cultura, agora aliadas à produção capitalista (Hardt; Negri, 2001).

Essas estruturas burocráticas flexíveis possibilitam à organização exercer o poder não só sobre o trabalho, mas sobre a vida do trabalhador (Tragtenberg, 1980). Ou seja, a vida passa a ser objeto de poder, sendo o primeiro passo envolvê-la na sua totalidade e após administrá-la (Foucault, 1985). O poder torna-se efetivo sobre a vida total dos trabalhadores da população quando é integral, vital para todos os indivíduos incorporarem por sua própria vontade (Prado, 2003).

Harmonias administrativas – Para demonstrar como esse fenômeno ocorreu dentro das organizações, Tragtenberg (1980) parte da perspectiva do mainstream das teorias organizacionais, em que os conflitos são movimentos de desintegração da sociedade. Inicialmente, com a falsa promessa de promover o equilíbrio das relações, as organizações buscaram combater a sensação de desenraizamento por meio do reconhecimento dos grupos informais. As técnicas gerenciais passaram a utilizar aspectos da escola de relações humanas para aumentar a participação dos funcionários no poder decisório.

Essa participação institui uma “falsa consciência”, na qual os trabalhadores são importantes enquanto apenas legitimam decisões já tomadas. Ainda, essa tentativa de harmonia promove a inação do indivíduo em busca de não transformação do meio. Como argumenta De Paula (2002), quando as perspectivas da administração interpretam as tensões resultantes da relação entre trabalho e capital sobre uma visão do individual e personalista, encobre os conflitos, principalmente os políticos e os aspectos relacionais de poder. Além de criar uma culpabilização do trabalhador sobre seu papel social (De Paula, 2002).

Essas buscas de harmonização por meio do fetiche de uma harmonia em suas relações de trabalho, nas quais o capital cede um pouco de poder aos trabalhadores para aumentar a sua sujeição. Essa sujeição é um fetiche (falsa consciência) de que os trabalhadores realmente influem em algo (Tragtenberg, 1980). Com esse objetivo, há ofertas vantajosas, por exemplo submeter-se à flexibilização para trabalhar, momentos de incentivo para participação na melhoria da qualidade de vida no trabalho (De Paula, 2002).

Ao observar a realidade do trabalhador em diversos setores produtivos, os métodos administrativos do mainstream colaboram para o aumento do trabalho em estratégias participativas que propiciam a incorporação dos conhecimentos dos trabalhadores. Como argumenta Paes de Paula (2002), o emprego da automação e a informatização possibilitam reinvenção da superespecialização do trabalhador na perspectiva taylorista. Agora não precisa mais saber fazer, pois está tudo ao alcance de um clique. A burocracia flexível foi influenciada pelas escolas das relações humanas, comportamentais, teorias dos sistemas e teoria da contingência, em busca de responder as mudanças ambientais em busca da sobrevivência ao impacto da tecnologia nas organizações (De Paula, 2002).

Muito além de uma ruptura paradigmática dentro do campo das organizações evidencia-se uma adaptação das teorias e práticas da administração ao então capitalismo flexível. Conforme Paes de Paula (2002), em busca da eficiência e produtividade, em busca da harmonia administrativa combinam-se técnicas clássicas e práticas participativas, reforçando seu arcabouço ideológico capitalista. Como consequência, as novas teorias administrativas reproduzem a ideologia da harmonia administrativa.

Percebe-se que os avanços tecnológicos e científicos estão dificultando a construção de uma sociedade democrática e o alcance de novos níveis de emancipação no trabalho. Para isso é necessário buscar compreender a democracia como um conflito que necessita de uma perspectiva de participação consistente que propicie a distribuição de poder (De Paula, 2002). As dificuldades impostas no processo do trabalhador dentro das organizações propiciam a busca da liberdade para além do campo organizacional.

Assim, o empreendedorismo ganha seguidores, entretanto com o mesmo discurso da flexibilidade do capital. A possibilidade do trabalho autônomo, dos contratos temporários e das relações cada vez mais provisórias entre organizações e trabalhadores é danosa para a perspectiva política da classe trabalhadora. Esse tipo de fetiche fomenta uma ilusão de liberdade e colabora para o individualismo do trabalhador, pois contribui para a desmobilização política e para o distanciamento da vida democrática (Tragtenberg, 1980). Como argumenta Paes de Paula (2002), em consequência disso essa ideologia do empreendedorismo, indo além das fronteiras das empresas, se entrelaça nas estruturas sociais nas quais os trabalhadores não se reconhecem mais enquanto classe.

* professor e pesquisador, doutorando em Administração na UFMG

Fonte: Fundação Perseu Abramo
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