Mulheres negras são as mais vulneráveis à precarização do trabalho e ao assédio

Um dia de luta. Assim o Dia Internacional da Mulher foi aclamado pelas palestrantes e organizadores do evento “A mulher e o trabalho: problemas recentes e recorrentes”, realizado em 8 de março, pela Fundacentro de Campinas, no Instituto Agronômico – IAC. “O 8 de março é basicamente um dia de luta da mulher como trabalhadora. Essa é a semente”, defende a médica do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador – Cerest Campinas, Mírian Silvestre.

“A celebração do Dia Internacional da Mulher tem tido um caráter festivo e até mesmo comercial, com a distribuição de flores ou presentes para as mulheres, atitudes que, particularmente, julgo não evocar o espírito das operárias russas, grevistas do dia 8 de março de 1917, marco mundial da defesa da mulher no campo social, econômico e político”, completa o chefe da Fundacentro de Campinas, Achilli Sfizzo Junior.

A médica também destacou a greve das trabalhadoras russas em 8 de março de 1917 como um marco para a data, que foi oficializada pelo Organização das Nações Unidas – ONU, em 1975. Elas atuavam em uma tecelagem e lutavam por melhores condições de trabalho. Questão mais do que atual, se considerarmos a precarização do trabalho, que atinge alguns postos de forma mais intensa, os quais muitas vezes são ocupados por mulheres.

“Nós sabemos que a reforma trabalhista pode afetar aqueles que são mais vulneráveis, entre eles, mulheres e ainda mais mulheres negras”, afirma Mírian Silvestre, destacando aspectos como a precarização de vínculo, a terceirização, o trabalho intermitente, o negociado sobre o legislado em uma negociação em que o trabalhador não tem poder. A possibilidade de trabalho em ambientes insalubres em grau médio para gestantes e lactantes também foi criticada assim como o dano moral com valor limitado.

Já sobre a Reforma Previdenciária, a médica do Cerest destacou a possibilidade de requisitos para aposentadoria igualados entre os sexos e de não recebimento do benefício de forma integral em caso de pensão por morte.

Na avaliação da engenheira da Fundacentro de Campinas, Thais Santiago, “as mulheres e os negros correspondem a maior parte da força de trabalho subutilizada no Brasil”. “A tendência é que, com a retomada do mercado de trabalho, esses grupos continuem sendo absorvidos, em sua maioria, pelas ocupações mais precárias e informais, avaliam especialistas”, explica. “Com a reforma trabalhista e consequente precarização do trabalho, a vida das trabalhadoras ficará mais difícil”, completa.

Assédio sexual – Segundo a ONU Mulheres, o dia 8 de março “se soma ao movimento mundial sem precedentes por direitos, igualdade e justiça das mulheres. O assédio sexual, a violência e a discriminação contra as mulheres capturaram as atenções e o discurso público, com uma crescente determinação em favor da mudança”.

O assédio sexual e a opressão das mulheres no ambiente do trabalho foram questões discutidas em Campinas, pela socióloga da Fundacentro, Juliana Oliveira: “Quando a gente pensa porque o assédio sexual acontece com mulheres temos que pensar na divisão sexual do trabalho. Existe uma separação e hierarquização entre trabalho dos homens e trabalho das mulheres: o trabalho de cuidar do ser humano está relegado às mulheres, enquanto o trabalho dos homens está relegado à produção e às funções sociais de poder e comando”.

Essa divisão fica clara quando se olha para a ocupação dos cargos gerenciais em órgãos privados e públicos: 62,2% por homens e apenas 37,8% mulheres. “O trabalho reprodutivo afasta as mulheres do mercado de trabalho, retardando a entrada ou antecipando a saída. Isso vai dificultar o acesso das mulheres aos postos de comando, remuneração mais alta, poder econômico e político”, avalia a socióloga.

O Guia de Prevenção ao Assédio Sexual da Organização Internacional do Trabalho – OIT define o assédio sexual como “um ato físico ou verbal praticado num recrutamento ou local de trabalho pelo chefe, gerente, empregado, cliente ou colega de trabalho, que faz a pessoa se sentir agredida, incomodada, violada, insultada e inserida num ambiente de trabalho insuportável e hostil”.

A mulher vítima de assédio sexual se sente um objeto e não uma trabalhadora. Esse tipo de assédio inclui, além de situações de claras investidas sexuais não consentidas, as práticas sutis, que passam despercebidas para a maioria das pessoas, mas são sentidas por quem sofre. “Qualquer gesto ou palavra que insinue que uma mulher deve se sentir desejada sexualmente em ambiente de trabalho, sem o seu consentimento, é uma forma de violência psicológica e sexual”, aponta Juliana Oliveira.

As formas de apresentação do assédio sexual abrangem vocabulário, com o uso recorrente de palavras sexistas ou de cunho sexual em reuniões ou ordens; ambiente inadequado, como o uso de imagens com nudez ou conteúdo sensual no ambiente de trabalho; elogios e observações ao corpo da trabalhadora; convites e insinuações para atividade sexual ainda que fora do ambiente de trabalho, reiteradamente.

Ao sofrer o assédio sexual, a mulher pode desenvolver sintomas psicológicos como medo, ansiedade, culpa e raiva, além de sintomas físicos como dores de cabeça, insônia, tensão muscular, dor no estômago, pressão alta, fadiga.

O que podemos fazer diante dessa realidade? O acolhimento das pessoas, a preservação do sigilo da vítima e tratar do caso com discrição são atos importantes. A Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – Cipa, por exemplo, pode registrar em ata a ocorrência de assédio e se a empresa não tomar providências, esse documento pode ser levado à Superintendência Regional do Trabalho – SRT. “O assédio sexual é um crime, e a empresa pode ser responsabilizada”, alerta a socióloga.

É fundamental que a diversidade de gênero chegue aos cargos de comando. As mulheres precisam sair de uma posição submissa, serem claras, não temerem dizer que não é não. No caso de um presente, por exemplo, podem não aceitar ou levar para o departamento de achados e perdidos.

Outra questão primordial é que as mulheres se apoiem e acreditem em suas colegas de trabalho. “Um dos principais problemas do assédio é a solidão, por isso é importante contar para alguém, que, além do apoio, pode futuramente ser testemunha. Você pode produzir a prova, gravar ligações, mensagens de whatsapp”, explica Juliana. “As mulheres têm que se unir e cooperar uma com a outra, serem solidárias, mesmo que você não possa fazer nada, mas parar para ouvir é muito importante”, conclui.

Opressão de gênero – A opressão de gênero também aparece de diferentes maneiras. O código das vestimentas, por exemplo, é diferente para as mulheres. Insinuações de que a mulher trabalha na função porque é bonita ou que pode conquistar alguém com sua beleza também são formas opressivas de lidar com o gênero feminino.

Há outras formas de opressão. O “manterrupting” ocorre quando um homem domina a palavra e não deixa a mulher falar. Assim interrompe uma mulher, de forma constante e desnecessária, não permitindo que ela consiga concluir sua frase. O “mansplaining” acontece quando um homem explica algo óbvio, de forma didática, a uma mulher, como se ela não fosse capaz de entender.

Já o “bropriating” se caracteriza pela apropriação, por um homem, de uma ideia já expressa por uma mulher, levando os créditos por ela. Trata-se de uma apropriação de autoria. Dessa forma, diminuem a importância da mulher e negam que ela tenha direito à opinião. Por fim, o “gaslighting” se caracteriza por implantar falsas informações, dar informações pela metade e depois cobrar o conteúdo inteiro, negar o que disse, insinuar que a mulher está louca. O objetivo é alterar a percepção da vítima e abalar a confiança da mulher nela mesma, fazendo com que ela duvide do seu senso de percepção, raciocínio, memórias e sanidade.

A socióloga ainda destacou que as práticas de opressão de gênero podem constituir um processo de assédio moral. Nesse cenário, as maiores vítimas da discriminação acumulada são as mulheres negras. No final do evento, o debate foi intermediado pela pesquisadora da Fundacentro, Thais Barreira, que colocou a importância da diversidade ser respeitada e não colocada como exotismo.

“A mulher realiza fortemente o trabalho reprodutivo doméstico. Vemos nos países do primeiro mundo a opção por não ter filho. No início das discussões sobre LER/Dort [Lesões por Esforço Repetitivo / Distúrbios. Osteomusculares Relacionados ao Trabalho], muitas mulheres eram culpadas por ter a doença por lavar a roupa, a louça… Diziam que as horas que cuidavam da casa adoeciam mais do que as horas que trabalhavam na empresa”, relata a pesquisadora.

Muitos são os desafios a serem vencidos, e o evento realizado em Campinas/SP contribuiu para trazer a tona essas questões. “Hoje tocamos em assuntos muito importantes que precisam ser compreendidos e tratados”, finaliza Thais Barreira. (Fonte: Fundacentro)

CNTS

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