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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Crise no Ministério do Turismo expõe empenho do governo Bolsonaro na eleição da Câmara

Política

Suspeito de participar de esquema com ‘laranjas’, Marcelo Álvaro Antônio deixa a pasta após desavenças com o ministro Luiz Eduardo Ramos e abre caminho para cargo ser usado em negociações por apoio ao candidato do Planalto na sucessão de Rodrigo Maia.

Marcelo Álvaro Antônio já assumiu o posto de ministro do Turismo sob suspeita. Uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo o apontou, logo no início do governo Bolsonaro, como participante de um esquema de desvio de recursos do fundo eleitoral, por meio de candidaturas de mulheres que serviam de laranjas. O caso ganhava o noticiário vez ou outra, como quando Álvaro Antônio foi indiciado pela Polícia Federal por conta dessa suspeita, em outubro de 2019, mas, apesar das especulações, o ministro seguiu inabalável no cargo até a quarta-feira, 9, quando foi demitido do cargo. E por um motivo mais prosaico do que denúncias de corrupção: a política de Brasília.

Em meio à disputa para a sucessão nas presidências da Câmara e do Senado, o governo Bolsonaro reúne forças partidárias que possam favorecê-lo dentro do Congresso Nacional. A busca para abrir espaço para novos aliados na cúpula do Palácio do Planalto gerou atritos entre Marcelo Álvaro Antônio e o ministro Luiz Eduardo Ramos, chefe da Secretaria de Governo, como revelaram conversas por mensagens em um grupo de WhatsApp vazadas. “Não me admira o Sr. Ministro Ramos ir ao PR [presidente da República] pedir minha cabeça, a entrega do Ministério do Turismo ao Centrão para obter êxito na eleição da Câmara dos Deputados”, diz um trecho da mensagem, revelada pela CNN Brasil. “Ministro Ramos, o Sr. é exemplo de tudo que não quero me tornar na vida, quero chegar ao fim da minha jornada exatamente como meus pais me ensinaram, leal aos meus companheiros e não um traíra como o senhor”, segue a mensagem.

A mensagem escancara não apenas o receio do ministro de perder o cargo, mas o empenho do governo na sucessão da Câmara – empenho sobre o qual o presidente tem desconversado publicamente. Após o Supremo Tribunal Federal – STF referendar o impedimento constitucional à reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e David Alcolumbre (DEM-AL) na Câmara e no Senado, respectivamente, o nome do deputado Arthur Lira (PP-AL), favorito de Bolsonaro, vai arregimentando apoios. A maioria da bancada do PSB – 18 de 30 deputados –, por exemplo, manifestou apoio ao progressista na quarta-feira. Do outro lado do ringue, Maia, presidente cessante da Câmara, promete promover uma candidatura pela “independência” da Casa legislativa.

Bolsonaro escolheu para a vaga o presidente da Embratur, Gilson Machado. Ao colocar um amigo pessoal no cargo, o presidente facilita uma futura troca para acomodar o Centrão em busca de votos pelo comando da Câmara. O Ministério do Turismo é bastante cobiçado pelo grupo que se aproximou do governo em troca de cargos.

A disputa na Câmara é de extrema importância para o Palácio do Planalto por duas razões: a primeira é evitar que o atual presidente da Casa, Rodrigo Maia, adversário político do presidente, consiga fazer um sucessor, o que fortaleceria seu grupo na disputa presidencial de 2022. A outra é que ter um aliado no cargo possibilitará ao governo levar adiante sua agenda ideológica.

Ao demitir Antônio, Bolsonaro o repreendeu por ter exposto divergências em um grupo de WhatsApp e disse que as diferenças deveriam ser resolvidas pessoalmente, não em público.

Na conversa com o presidente, relatada à reportagem por integrantes do governo, Antônio acusou Ramos de fazer intrigas entre ministros – ele já foi chamado de “Maria Fofoca” por Ricardo Salles, do Meio Ambiente. O agora ex-ministro do Turismo ainda citou o fato de ser um aliado fiel a Bolsonaro desde a campanha eleitoral e, apesar de ter demonstrado descontentamento, disse que seguirá apoiando o governo.

O próprio Ramos é um dos que também devem perder o cargo para dar espaço ao Centrão. Após acumular desgastes com outros integrantes da Esplanada dos Ministérios, ele deve ser deslocado para a Secretaria-Geral da Presidência no lugar de Jorge Oliveira, que assumirá uma cadeira no Tribunal de Constas da União – TCU após a aposentadoria de José Mucio Monteiro. Também é aguardada a substituição de Onyx Lorenzoni no Ministério da Cidadania.

Fonte: Com El País e Estadão
CNTS

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