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Foto: Alex Pazuello/Semcom-AM

Covid-19 se espalha entre indígenas brasileiros e já ameaça povos isolados

Coronavírus

Ao menos 287 índios já perderam a vida em decorrência do novo vírus. Comunidades dizem que invasores aproveitam a pandemia, com menos fiscalização, para entrar nos territórios.

Pelo menos 287 indígenas brasileiros já perderam a vida em decorrência do novo coronavírus, em um ritmo que se acelera. De acordo com o Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena, foram 28 óbitos em todo o mês de abril. Já nos primeiros oito dias de junho, o número triplicou, chegando a 89 mortes. A mais recente perda foi a de Paulinho Payakan, líder Kayapó de 67 anos, que faleceu nea quarta-feira, 17, no Hospital Regional Público do Araguaia, no sudeste do Pará, onde estava internado desde o dia 9 de junho. Antes dele, um bebê kalapalo de apenas 45 dias tornou-se o primeiro óbito registrado entre os indígenas do Xingu, no Mato Grosso. Há outros dois casos confirmados da doença na região, de acordo com o Ministério da Saúde.

O Comitê pela Vida e Memória indígena, formado por diversas associações, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Apib, contabiliza 5.484 infectados de 103 povos diferentes. Os números são muito maiores do que os oficiais, que trazem 103 mortes e 3.079 casos confirmados. As lideranças indígenas afirmam que a primeira morte ocorreu em 20 de março, mas o governo só registrou o primeiro caso de infecção – uma jovem de 20 anos, da etnia Kocama, no Amazonas – em 2 de abril. De acordo com o Ministério da Saúde, a divergência se dá porque ele só contabiliza os casos e óbitos entre indígenas que vivem em aldeias, excluindo, por exemplo, os que vivem em zonas urbanas ou em territórios isolados.

Mas o novo coronavírus já ameaça até aqueles que habitam as mais recônditas matas do país. No Vale do Javari, extremo oeste do Amazonas, existe a maior concentração do mundo de indígenas isolados – aqueles que preferem viver somente com membros da própria aldeia, sem contato com outros grupos ou não indígenas –. São pelo menos 16 registros, de acordo com a Fundação Nacional do Índio –  Funai. Lá vivem ainda cerca de 7.000 índios de recente contato, que tomaram a decisão de se aproximar há apenas 40 ou 20 anos, a depender do grupo. A Covid-19 chegou em 4 de junho, depois que quatro funcionários do Distrito Sanitário Especial Indígena – Dsei Vale do Javari comprovaram que estavam com a doença e foram removidos às pressas da Aldeia de São Luís. Um dia depois, os exames confirmaram que três indígenas kanamari também estavam infectados.

“É assustador. Muitas famílias pegaram seus filhos e fugiram da aldeia, foram para a cabeceira do igarapé e não sabemos nada mais deles, não sabemos se estão bem, se foram atendidos. Tem aldeia mais pra cima que fez barreira para não entrar ninguém de fora e para ninguém sair”, conta Higson Kanamari, liderança local. Segundo ele, entre os dias 9 e 10 de junho, 16 casos de Covid-19 foram confirmados em duas aldeias vizinhas. “A coisa está se alastrando muito rápido, e não temos suporte hospitalar perto da aldeia [mais de mil quilômetros distante de Manaus]. Temo pelos povos isolados da região, que são ainda mais vulneráveis”, lamenta.

Para Dinaman Tuxá, da Apib, a situação dos povos indígenas “é de uma vulnerabilidade imunológica e política”. “Existem, no Brasil, 174 territórios em que vivem povos isolados. A Constituição determina que o governo respeito o isolamento dos povos indígenas que vivem nessa situação, mas isso não acontece.

O Superior Tribunal de Justiça – STJ autorizou a nomeação de um missionário para o departamento de povos isolados da Funai”, lamenta. Tuxá refere-se a Ricardo Lopes Dias, que assumirá a Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai. Ele havia sido nomeado em fevereiro, mas sua posse foi suspensa em 21 de maio pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, à pedido do Ministério Público Federal, porque Dias é ligado à Missão Novas Tribos do Brasil, um movimento que busca de evangelizar povos isolados, o que revelaria conflito de interesses com a política indigenista do Brasil.

Em nota enviada após a publicação desta reportagem, a Funai informou que, desde o mês de março, “tem implementado uma série de medidas para o enfrentamento à Covid-19 e a prevenção ao contágio do coronavírus entre a população indígena”, tendo investido 20,7 milhões de reais para ações de proteção aos povos indígenas no contexto da epidemia. Segundo a Funai, esses recursos têm sido utilizados para a aquisição emergencial de alimentos, para o deslocamento de equipes às Frentes de Proteção de povos indígenas isolados e de recente contato e para a aquisição de veículos e embarcações para viabilizar o transporte de servidores até as aldeias e de indígenas até as unidades de saúde. Na nota, a entidade acrescenta que “já distribuiu 90,8 mil cestas de alimentos para famílias indígenas em todo o país”.

Garimpo e desmatamento não fazem quarentena – A triste novidade da Covid-19 chegou aos indígenas brasileiros pela mão de duas velhas mazelas conhecidas por eles, o desmatamento e o garimpo ilegal, que não dão trégua em tempos de pandemia. Lideranças de diferentes etnias denunciam o aumento de invasões até de pescadores e caçadores ilegais em seus territórios, o que faz aumentar o medo – e o risco – da contaminação. “Eles estão aproveitando o momento da pandemia, que tem menos fiscalização ainda, e estão invadindo mais nossos territórios”, afirma Higson Kanamari, do Vale do Javari.

O desmatamento em terras indígenas aumentou 63% em abril em relação ao mesmo mês do ano passado, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe. O mesmo sistema mostra que, no primeiro quadrimestre de 2020, o aumento foi de 55% em relação ao mesmo período do ano anterior: de janeiro a abril, 1.319 hectares – o equivalente a 1.800 campos de futebol – foram destruídos.

E, em algumas regiões, a situação pode piorar. É o caso do Mato Grosso, onde a Assembleia Legislativa votará um projeto de lei do governador Mauro Mendes que protege apenas terras indígenas homologadas, deixando vulneráveis à ação de invasores aquelas que estejam em estudo para demarcação, delimitadas ou declaradas. Em uma reunião ministerial no dia 22 de abril, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu que o governo do presidente Jair Bolsonaro aproveitasse o foco da imprensa na cobertura da pandemia do novo coronavírus para “passar de boiada” desregulação da proteção ao meio ambiente.

Em reposta a essas velhas ameaças, cada vez mais mortíferas, as lideranças dos povos yanomami e ye’kwana se uniram para criar a campanha #ForaGarimpoForaCovid, que demanda do governo federal a “desintrusão” urgente dos mais de 20.000 garimpeiros da Terra Indígena Yanomami.

“Esse posicionamento anti-indígena vem de antes mesmo de este governo tomar posse. Ele está utilizando o coronavírus como instrumento de um genocídio e, ao mesmo tempo, usando-o para esconder o genocídio que já estava em marcha, com o garimpo ilegal, por exemplo”, afirma Tuxá, que critica a “falta de planejamento ou sequer de debate para combater o coronavírus entre os indígenas”.

O coordenador da Apib defende a criação de um plano emergencial para construir hospitais de campanha em territórios indígenas. “Além de outras estruturas adequadas à nossa realidade. Na nossa cultura, não tem como viver isolamento, quando, em uma maloka, convivem 16 pessoas. Tem comunidades sem álcool em gel e sabão, é obrigação do governo garantir isso”, diz. Tuxá também reclama estruturas de saúde que respeitem a integridade cultural dos povos. “Os hospitais não garantem o espaço para a pajelança, nosso tratamento espiritual, que acompanha o tratamento do corpo. Tem indígena que não quer ir para o hospital por isso. Prefere fazer os rituais, seja de cura ou fúnebre, na aldeia, prefere morrer aqui”.

Fonte: El País
CNTS

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