
Bolsonaro tenta blindar Moro demitindo aliados
Política
Às vésperas da oitiva do ministro da Justiça na CCJ do Senado sobre o escândalo da Vaza Jato, o presidente demite membros de sua gestão por motivos ideológicos.
Depois da hesitação inicial quando irrompeu o escândalo da Vaza Jato em torno do ministro da Justiça, Sergio Moro, há uma semana, o presidente Jair Bolsonaro não para de tentar criar fatos políticos para desviar a atenção do seu ministro mais ilustre. Passou a defender Moro de modo incondicional, apareceu com ele numa partida de futebol na semana passada e viu no caso – e na defesa intransigente da Operação Lava Jato – uma oportunidade de fazer reviver o clima de campanha para tentar resgatar a popularidade de seu governo.
Às vésperas da oitiva do ministro na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, na quarta-feira, 19, sobre as mensagens trocadas com membros da força-tarefa da Lava Jato, o movimento do presidente da República foi iniciar a “fritura” de membros da sua gestão. A fritura começou com a demissão do ministro da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto Santos Cruz, desafeto dos filhos de Bolsonaro e da ala ideológica; depois foi a vez de exonerar do comando dos Correios o general Juarez de Paula Cunha, pelo fato dele criticar a privatização da estatal e tirar fotos com parlamentares da oposição. Segundo Jair Bolsonaro, o ex-presidente dos Correios agiu como sindicalista; e por último o pedido de demissão do presidente do BNDES, Joaquim Levy.
O motivo de Levy ser carbonizado em praça pública pelo presidente e o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi porque ele colocou na diretoria do banco nomes ligados ao PT. O tal “nome ligado ao PT” era o economista Marcos Barbosa Pinto, indicado por Levy para a nova diretoria do banco a que o programa de privatizações ficaria subordinado. Pinto foi chefe de gabinete do presidente do BNDES entre 2006 e 2007, no governo Lula, assim como Levy fora ministro da Fazenda no governo Dilma. Ambos nada têm de petista ou esquerdista nas posições econômicas. Estão, ao contrário, tão próximos do liberalismo quanto o próprio Guedes.
Outro motivo para demissão foi a resistência de Joaquim Levy em “abrir a caixa-preta do BNDES”, uma promessa de campanha. A dificuldade se explica: a tal “caixa-preta” foi aberta no governo Temer, durante a gestão do economista Paulo Rabello de Castro. Fora o que já se conhecia dos acertos políticos dos governos petistas para favorecer empresários amigos, nada se encontrou, como revela o Livro Verde publicado em 2017, um balanço das gestões do BNDES entre 2001 e 2016.
A fritura de ministros não é bem-vista no Legislativo: quando Bolsonaro demitiu Gustavo Bebianno, parlamentares aliados ficaram ressabiados. Diziam que, se o presidente tratava o assunto de maneira pública com um de seus aliados de primeira hora, teriam dificuldade para confiar nele. O clima no Congresso não é um dos melhores na semana em que Sergio Moro dará explicações aos parlamentares.
Enquanto o portal The Intercept não divulga mais informações sobre o escândalo da Vaza Jato, o ministro precisa explicar as mensagens nas quais sugeriu ao Ministério Público Federal trocar a ordem de fases da Lava Jato, cobrou a realização de novas operações, deu conselhos e pistas, antecipou ao menos uma decisão judicial e cobrou dos procuradores uma ação contra o que chamou de ‘showzinho’ da defesa de Lula.
Depois da oitiva, resta saber se a fritura pública realizada por Bolsonaro nos membros da sua gestão será suficiente para blindar Sergio Moro ou causará mais racha entre o Executivo e o Legislativo.