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Foto: Isac Nóbrega/PR

Bolsonaro mente em pronunciamento quando Brasil supera 3 mil óbitos diários na pandemia

Coronavírus

Presidente adota tom diferente em pronunciamento de rádio e TV, mas sem mencionar recorde de mortes e nem anunciar novas medidas para retirar os hospitais do atual estado de colapso. Bolsonaro também distorce dados e mente que sobre as ações do governo e sobre vacinas.

Pressionado pelo recorde de mortes e pela escassez de leitos de UTI, de medicamentos para intubação e de vacinas contra Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro fez pronunciamento oficial na noite de terça-feira, 23, e tentou defender as ações do governo no combate à crise, mas mentiu e distorceu dados sobre a vacinação e as ações do seu governo.

Na fala de pouco mais de três minutos, apesar de reconhecer que o coronavírus “infelizmente tem tirado a vida de muitos brasileiros”, o presidente sequer mencionou o recorde de mortes – 3.251 em 24 horas, totalizando 298.676 óbitos desde o início da crise sanitária. Ele afirmou que o governo tomou medidas para combater o coronavírus ao longo de toda a pandemia e que sempre foi a favor das vacinas. “Em nenhum momento, o governo deixou de tomar medidas importantes tanto para combater o coronavírus como para combater o caos na economia. Sempre afirmei que adotaríamos qualquer vacina, desde que aprovada pela Anvisa. E assim foi feito”, afirmou o presidente.

Na realidade, ao longo de um ano de pandemia, apesar de lançar medidas econômicas, Bolsonaro minimizou frequentemente os riscos do coronavírus, combateu medidas de isolamento social, promoveu curas sem eficácia, criticou a vacina e tentou sabotar iniciativas paralelas de vacinação e combate à doença lançadas por governadores e prefeitos em resposta à inércia do seu governo na área.

Em outubro, o presidente afirmou categoricamente que não compraria a vacina chinesa Coronavac – em claro embate com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que impulsionou o desenvolvimento da vacina da Sinovac, da China, em parceria com o Instituto Butantan.

Em meados de dezembro, Bolsonaro chegou a afirmar que não iria se vacinar. “Se alguém achar que minha vida está em risco, o problema é meu e ponto final”, disse em entrevista à TV Bandeirantes. “Esse vírus é igual a uma chuva, vai pegar em todo mundo”.

Distorções – No pronunciamento, Bolsonaro enumerou ações do governo federal para aquisição de vacinas, sem mencionar que inicialmente menosprezou a Coronavac e que inicialmente rejeitou a vacina da Pfizer-Biontech. “Estamos fazendo e vamos fazer de 2021 o ano da vacinação dos brasileiros”, prometeu.

O presidente omitiu que ele próprio foi o principal responsável pela demora na aquisição dos imunizantes. Em setembro do ano passado, seu Ministério da Saúde ignorou uma oferta da Pfizer pela negociação antecipada de 70 milhões de doses de vacinas que já poderiam ser aplicadas em janeiro deste ano. Em sua tentativa de mudar a narrativa, Bolsonaro ainda disse que intercedeu pessoalmente nas conversas com Pfizer e Janssen, que planejam fornecer 138 milhões de doses neste ano. Outra vez, omitiu que ele era contrário à assinatura de contrato com a Pfizer por conta de cláusulas que tratavam de responsabilização por eventuais efeitos colaterais.

Em entrevista à DW, a pesquisadora Margareth Dalcolmo, da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, considerou que o Brasil errou ao não negociar vacinas para Covid-19 com mais empresas farmacêuticas no “momento adequado” e que o país agora corre atrás de imunizantes.

Em sua fala desta terça, Bolsonaro afirmou também que o Brasil é o quinto país que mais vacinou no mundo. No entanto, segundo levantamento da plataforma Our World in data, ligada à Universidade de Oxford, o Brasil aparece atrás de mais de 70 países em relação a doses aplicadas a cada 100 habitantes até 22 de março. Foram aplicadas 6,64 doses para cada 100 brasileiros.

O presidente também afirmou que o Brasil tem mais de 14 milhões de vacinados. Na realidade, segundo o Ministério da Saúde, já foram aplicadas 15,2 milhões de doses no país – mas das 11,6 milhões de pessoas vacinadas, apenas 3,6 milhões já receberam duas doses.

O presidente também inflou um pouco os números de doses distribuídas para os estados. Enquanto ele disse que foram 32 milhões, o Ministério da Saúde contabiliza 29,9 milhões.

O presidente disse ainda que estão garantidas 500 milhões de doses até o fim do ano, apesar de terem havido vários atrasos nas entregas nos últimos dias. Segundo o Ministério da Saúde, a pasta já garantiu mais de 562 milhões de doses de imunizantes até o fim de 2021, mas, como destaca a agência de checagem Lupa, o governo federal vem alterando o cronograma de entrega de imunizantes no país, o que pode alterar as estimativas.

Bolsonaro também destacou que em setembro de 2020, o Brasil assinou um acordo com o consórcio Covax Facility que prevê 42 milhões de doses para o país. No entanto, segundo a Folha, documentos mostram que cada país envolvido na iniciativa poderia optar por doses para 20% da população ou mais, mas que o Ministério da Saúde optou por acordar doses para apenas 10% dos brasileiros. O primeiro lote de imunizantes adquiridos por meio do consórcio chegou ao Brasil no último domingo.

Mesmo com o ritmo lento da vacinação no país, Bolsonaro prometeu imunizar toda a população até o final do ano. “Muito em breve, retomaremos nossa vida normal”, prometeu o presidente.

O discurso é visto como uma tentativa de melhorar a imagem do governo e mudar o tom em meio a pressões por uma coordenação nacional contra a Covid-19. Durante a fala do presidente, houve protestos e panelaços em várias capitais. Na semana passada, o Datafolha apontou que a maioria dos brasileiros vê a pandemia fora de controle e que para 43% Bolsonaro é o principal culpado pela grave situação no país.

Situação da pandemia no país – O Brasil não apenas é o segundo país com o maior número bruto de mortes – atrás apenas dos Estados Unidos, com 543.196 óbitos –, como também é o único que registra, atualmente, média superior a mil mortes diárias, segundo a plataforma Our World in Data.

Somente os Estados Unidos haviam superado, em dezembro do ano passado, a marca de 3.000 mortes por dia – o México também atingiu essa cifra, em 5 de fevereiro, mas isso porque no dia anterior não havia computado nenhum óbito. Quando os Estados Unidos, que possuem 333 milhões de habitantes, chegaram a 3.177 mortes em um dia, isso representou uma taxa de 9,6 óbitos por milhão de habitantes, ainda segundo o site Our World in Data. Ao atingir o recorde de 4.477 mortes em 12 de janeiro, poucos dias antes do republicado Donald Trump deixar o cargo, isso representou 13,53 mortes por milhão de habitantes.

Já o Brasil, com cerca de 210 milhões de pessoas, atingiu proporção similar a essa na semana passada, em 16 de março, quando alcançou 2.841 óbitos. Com o novo recorde nesta terça-feira, de 3.251 mortes, a proporção chega a aproximadamente 15,5 óbitos por milhão de habitantes. Portanto, proporcionalmente o Brasil já registrou mais óbitos diários que os Estados Unidos.

O alerta de que o Brasil superaria mais uma marca fora dado mais cedo, com o Estado de São Paulo contabilizando 1.021 mortes em 24 horas, segundo o Governo João Doria (PSDB). O recorde anterior era de uma semana antes, 16 de março, dia em que 679 óbitos foram contados. No Estado mais rico do país, com a maior rede pública e privada de hospitais, praticamente não há vagas para novos pacientes – a taxa de ocupação de leitos de UTI é superior a 91%. A situação é similar – ou até mais dramática – nas demais unidades federativas. Na semana passada, os governadores que os remédios sedativos para a intubação de pacientes em UTIs estavam se esgotando em ao menos 18 Estados e que mais de uma centena de cidades já estavam registrando falta de oxigênio.

Os números do Brasil não colocam o país em uma situação inédita no mundo, uma vez que outras nações já atravessaram períodos similares ou até piores na pandemia, considerado o tamanho de suas populações. Ainda assim, enquanto os principais afetados pelo coronavírus apostaram em rígidas medidas de restrição à circulação, o Brasil segue na direção contrária do que recomendam os especialistas e titubeia ao fazer o mesmo.

Fonte: Com Deutsche Welle Brasil, El País e Folha de S.Paulo
CNTS

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