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Foto: Jader Paes/Ag.Pará

Auxílio emergencial reduz impacto da pandemia na economia

Economia

Benefício que contemplou quase metade da população garantiu retomada parcial de segmentos da indústria, comércio e serviços. Mas economistas temem que, sem ele, recuperação possa ser dificultada.

Passados cinco meses do início da pandemia do novo coronavírus no Brasil, os efeitos sobre a economia do país começam a ficar mais claros. O Banco Central anunciou na última sexta-feira, 14, que o Índice de Atividade Econômica – IBC-Br, considerado uma prévia do Produto Interno Bruto – PIB, caiu 10,92% na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2020.

Se a retração do PIB for confirmada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE no resultado que será divulgado no dia 1º de setembro, o país terá entrado em recessão técnica – recuo do nível de atividade por dois trimestres consecutivos. Nos três primeiros meses do ano, a economia já tinha retraído 1,5%.

Apesar do cenário pessimista, indicadores referentes ao mês de junho divulgados na última semana pelo IBGE mostram um resultado acima das expectativas em setores importantes da economia.

Entre analistas ouvidos pela Deutsche Welle Brasil, a avaliação é de que os programas do governo para manutenção da renda e do emprego tiveram impacto positivo na economia. Com especial destaque para o auxílio emergencial, tais medidas foram decisivas ao sustentarem a demanda dos consumidores, garantindo a recuperação parcial dos segmentos da indústria, comércio e serviços.

Esse último é o que inspira maior preocupação, sobretudo pela participação de 75,8% no PIB brasileiro. Entre março e junho, o setor acumula queda de 14,5% no volume de receitas, segundo o IBGE. O resultado de junho, uma alta de 5% na comparação com maio, representa o primeiro crescimento após quatro retrações mensais consecutivas – em fevereiro, mesmo fora da pandemia, houve recuo de 1%.

O setor é o mais afetado pelas medidas de isolamento social. Na comparação com o mês de maio, houve crescimento de 14,2% nos serviços prestados às famílias, que incluem atividades de hotelaria, bares e restaurantes, além de academias. O resultado positivo, todavia, deu-se em cima de uma base de comparação depreciada. Prova disso é que na comparação com junho do ano passado a queda foi de 57,5%.

Com maiores pesos no índice geral do setor, os segmentos que mais influenciaram o resultado positivo de junho foram transportes e serviços de informação e comunicação, que cresceram respectivamente 6,9% e 3,3% ante maio. Ainda assim, acumulam quedas intensas na pandemia.

“Houve uma transferência dos gastos das famílias com esses serviços para bens tangíveis. O faturamento que diminui no restaurante aumenta no supermercado”, explica o economista Fábio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio, Serviços e Turismo – CNC.

Bentes projeta que o setor só vai recuperar os níveis de faturamento pré-pandemia no início de 2022, com crescimento gradual até lá. O economista afirma que a imprevisibilidade sobre as reformas econômicas e outras incertezas no campo político desestimulam investimentos.

“Esse cenário faz com que as empresas coloquem o pé no freio para esperar o horizonte ficar mais claro. Estamos trabalhando com uma projeção de queda anual de 5,7% nos serviços que, se confirmada, será a maior desde que a PMS foi criada”, diz.

Comércio em alta – Menos dependente do consumo presencial, o comércio apresentou a trajetória mais positiva entre os setores da economia. Foi o único que conseguiu, na média, repor as perdas dentro da pandemia e superar o volume de vendas observado em fevereiro, último mês antes do isolamento social nas principais capitais do país.

Em junho, as vendas subiram 8% em relação a maio, quando já tinham avançado 14,4% sobre o mês anterior, descontados efeitos sazonais. Números da Receita Federal indicam que o faturamento do varejo eletrônico cresceu 70% na comparação com o mesmo mês do ano passado, enquanto os pedidos aumentaram 140%. Embora essa tendência já fosse observada nos meses iniciais da pandemia, intensificou-se em junho.

Além do redirecionamento dos gastos das famílias para bens duráveis, já mencionado, observa-se um impacto da redução no índice de isolamento social de 63% no início de abril para 38% em junho, segundo a consultoria Inloco.

Na análise por atividades, a de supermercados, produtos alimentícios e bebidas manteve bom desempenho, registrando alta de 8,9% em relação ao nível de fevereiro, de acordo com o IBGE. O segmento chegou a avançar na crise, acelerando mesmo nas comparações com os meses de 2019, quando não havia pandemia.

Como tem o maior peso dentro do varejo, o comércio ligado a alimentos puxou a média geral para cima, ofuscando os recuos observados em sete das dez atividades do comércio na comparação com o período pré-pandemia, que chegam a 45,8% no caso de tecidos, vestuário e calçados e 24,8% no caso de veículos, motos e autopeças.

Causou surpresa entre economistas o crescimento de 12,9% no segmento de móveis e eletrodomésticos na comparação com maio, bem como o aumento de 15,6% no faturamento das lojas de material de construção. Estas atividades não são consideradas essenciais no varejo, ao contrário da venda de alimentos.

“São dois movimentos que acontecem com as pessoas em casa. De um lado, estão aproveitando a renda do auxílio emergencial e o tempo sobrando para fazer reformas pendentes em casa. Em outra frente, estão mobiliando suas casas para o home office dada a nova realidade, tornando-as mais confortáveis”, avalia a economista Luana Miranda, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas – Ibre/FGV.

Fator que mais impacta o desempenho do varejo, a massa de rendimentos caiu 5,6% no segundo trimestre deste ano, segundo o IBGE. Pelos cálculos da CNC, a queda chegaria a 8,2%, não fosse o auxílio emergencial de R$ 600 que beneficiou praticamente metade da população brasileira (49,5%) no mês de junho.

A recuperação ainda que parcial de atividades do comércio influenciou a indústria, que apresentou crescimento de 8,9% no volume de receitas em junho ante maio segundo o IBGE. Em São Paulo, que tem o maior parque industrial do país, o setor teve alta de 10,2%, puxado pela reativação de fábricas de veículos de passeio e caminhões – foi a segunda consecutiva, já que em maio havia registrado aumento de 8,9%.

Em termos absolutos, a indústria do Amazonas foi a que mais avançou, com elevação de 65,2% na produção industrial na comparação com maio. A alta fez do estado o primeiro e único do país até o momento a ter compensado as perdas do setor na crise, movimento ligado à melhora no desempenho das fábricas de bebidas e motocicletas – cuja demanda aumentou com a escalada dos serviços de entrega à domicílio nos maiores centros urbanos do país.

Analistas observam, ainda, que pico da pandemia aconteceu antes para o Norte do que para o restante do país, o que possibilitou a retomada das atividades quando outras regiões ainda começavam a sentir os efeitos da paralisação forçada. Em situação parecida, o Ceará também registrou crescimento de 39,2%.

Embora o desempenho da indústria tenha surpreendido positivamente, segundo o IBGE, o setor acumula retração de 10,9% nos seis primeiros meses do ano. O patamar de produção registrado em junho ainda está 13% abaixo do observado no primeiro bimestre, pré-pandemia, informa a CNC.

Preocupações no horizonte – Os economistas ouvidos pela DW Brasil dizem acreditar em uma melhora progressiva dos indicadores macroeconômicos nos próximos meses. Entretanto, alertam para desafios que se colocam no médio prazo.

Luana Miranda, do FGV, lembra que é incerta a manutenção do auxílio emergencial após o fim deste ano, bem como o impacto que a suspensão deste e outros benefícios criados pelo governo durante a pandemia poderiam ter sobre uma futura recuperação econômica.

“Os efeitos da retirada brusca do auxílio e outros benefícios concedidos às empresas são preocupantes. Houve o adiamento da cobrança de certos tributos, por exemplo. Quando as empresas tiverem que arcar com esses custos, vão conseguir manter o mesmo número de pessoal anterior à pandemia?”, questiona.

Fábio Bentes, da CNC, receia que a economia volte ao ritmo lento de crescimento pré-pandemia. Em 2019, a alta do PIB foi de 1,1%. “O PIB per capita não sai do lugar desde 2014. A recuperação econômica depende demais do investimento privado, sobretudo externo. Se o país continuar emitindo sinais negativos, a tendência é desacelerar”, avalia.

Fonte: Deutsche Welle Brasil

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