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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Após liderarem disputa em 2018, bolsonarismo e PT perdem protagonismo nas eleições municipais

Eleições 2020

As duas principais forças políticas da eleição presidencial de 2018, o bolsonarismo e o PT, perdem forças nas eleições municipais e as principais prefeituras do país. Dois terços dos candidatos a prefeito apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro perderam; já o PT ficou de fora das 100 maiores cidades no primeiro turno.

Os resultados do primeiro turno da eleição municipal, neste domingo, 15, mostram alteração das forças partidárias na direita e na esquerda, baixa capacidade do presidente Jair Bolsonaro de influir no pleito e alta da abstenção, ligada à pandemia do coronavírus, mas também a um desencantamento da população com a política. A onda bolsonarista, que varreu as urnas em 2018 e que impulsionou a vitória de azarões e aventureiros em todo o país, virou uma marola nestas eleições municipais. Já o Partido dos Trabalhadores ficou de fora da prefeitura das 100 maiores cidades do país. Porém, no segundo turno o partido ainda tem chance de eleger 15 prefeitos.

O presidente da República pediu votos em seis capitais. Em quatro delas, seus candidatos naufragaram ainda no primeiro turno. Em Manaus, Coronel Menezes amargou um quinto lugar. No Recife, Delegada Patrícia terminou em quarto. Em Belo Horizonte, Bruno Engler ficou em segundo, mas não conseguiu nem 10% dos votos válidos.

Em São Paulo, Bolsonaro teve uma tripla derrota. Seu aliado Celso Russomanno, que liderava as pesquisas, derreteu e acabou na quarta posição. Os dois finalistas não querem conversa com o capitão. Bruno Covas (PSDB) já dispensou qualquer hipótese de apoio, e Guilherme Boulos (PSOL) faz oposição radical ao Planalto.

Os candidatos bolsonaristas só passaram ao segundo turno no Rio de Janeiro e em Fortaleza. O prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), com rejeição na casa dos 60%, dificilmente terá fôlego para virar a disputa com Eduardo Paes (DEM). Na capital cearense a disputa entre José Sarto (PDT) e Capitão Wagner (Pros) foi mais equilibrada. Mas os votos da terceira colocada, a petista Luizianne Lins, agora tendem a migrar para o pedetista.

O presidente teve mais um revés em seu berço político. Seu filho Carlos Bolsonaro (Republicanos) perdeu o título de vereador mais votado do Rio. Foi ultrapassado por Tarcísio Motta, do PSOL. A outra representante do clã, Rogéria Bolsonaro, teve míseros dois mil votos.

A família ainda colheu uma derrota anedótica no Estado. Apontada como assessora fantasma do capitão, Wal do Açaí tentou se eleger vereadora de Angra dos Reis com o nome de Wal Bolsonaro. Apesar do empenho e do sobrenome do patrão, só atraiu 266 eleitores.

Numa tentativa de encobrir o vexame, Bolsonaro apagou o post em que pedia votos para seus candidatos. Não adiantou. No fim da noite, sua tropa adotou outra tática diversionista. Passou a usar o atraso na divulgação de resultados para disseminar teorias conspiratórias sobre fraude nas urnas.

O fracasso do presidente em emplacar a maioria de seus aliados nas capitais se deve a uma combinação de fatores, segundo cientistas políticos ouvidos pela Deutsche Welle Brasil. Um deles é o fato de Bolsonaro não estar filiado a uma legenda, portanto sem capacidade de mobilizar estruturas partidárias locais e montar alianças nos municípios.

Outro elemento é a atual taxa de popularidade do presidente, menor do que à registrada pelos ocupantes do Palácio do Planalto que tiveram sucesso em emprestar seu prestígio a candidatos a prefeito e vereador, como Fernando Henrique Cardoso em 1996 e Luiz Inácio Lula da Silva em 2008.

Encolhimento Petista – O PT, por sua vez, já vem de um péssimo desempenho eleitoral em 2016, ano em que o partido estava fortemente desgastado pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e pelas acusações de corrupção da operação Lava Jato. Há quatro anos, a sigla perdeu 60% das prefeituras que havia conquistado em 2012 – de 630 foi para 256, vencendo em apenas uma capital, Rio Branco (AC), no chamado G96, grupo que reúne as 26 capitais mais as 70 cidades que abrigam número superior a 200 mil eleitores.

O PT até o momento conseguiu 189 prefeitos – 65 a menos que em 2016. O partido, no entanto, ainda tem a chance de terminar as eleições com saldo melhor que o de 4 anos atrás se considerado o número de eleitores governados. A legenda tem 15 candidatos classificados para o 2º turno nas maiores cidades.

Para a cientista política Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, o PT ainda sofre as consequências da Lava Jato, que colou no partido a imagem de corrupto. Mais esse não é o único fator que afasta o eleitor da sigla, segundo pesquisa de campo que ela conduz com pessoas que deixaram de votar em candidatos petistas. “A falta de renovação das lideranças e da cúpula burocrática do partido é uma crítica que ouvimos muito, assim como o afastamento do PT dos territórios, do convívio mais cotidiano com a população. Há um sentimento de abandono nas entrevistas com ex-eleitores petistas”, afirma Solano.

Um dos grandes destaques do primeiro turno foi o feito do PSOL em São Paulo, que conseguiu garantir com Guilherme Boulos uma vaga na segunda fase da disputa com o tucano Bruno Covas e tomou do PT a liderança da esquerda na capital do maior colégio eleitoral do país. Dentro do PT, o resultado expõe uma divisão interna, evidenciada com declarações do ex-presidente Lula que preferia uma aliança do PSOL já no primeiro turno, e mostra que o partido tem o gigante desafio de encontrar novas lideranças competitivas e, junto com toda a esquerda, aprender a negociar e compor. Foram muitas as trocas de farpas nas redes sociais entre apoiadores das três candidatas de centro-esquerda que perderam as eleições para a prefeitura do Rio, mas que, juntas, teriam mais votos do que Marcelo Crivella (Republicanos). Ele, mesmo à frente de uma administração mal avaliada, acabou conseguindo votos para disputar o segundo turno com Eduardo Paes (DEM), diante do racha na esquerda.

DEM, PP e PSD crescem nas prefeituras – O MDB se mantém como o partido com maior número de prefeitos. São 766 eleitos até o momento, com mais 7 a caminho da disputa em 2º turno. As legendas que deram o maior salto em número de filiados nas prefeituras são DEM, PP e PSD.

O Democratas – que reelegeu Rafael Greca em Curitiba, Gean Loureiro em Florianópolis e também Bruno Reis para suceder ACM Neto em Salvador – chegou a 458 prefeituras. São 190 a mais que o total de eleitos pelo partido nas eleições municipais anteriores. O crescimento de 2016 a 2020 foi de 70,9%.

PP e PSD integram em Brasília o chamado Centrão, grupo de partidos sem ideologia clara com alto poder de influência no Congresso. O PP conquistou no 1º turno 672 prefeituras – salto de 35,8% frente ao total de 2016. Já o PSD chegou a 640 prefeitos, número que supera em 101 a quantia alcançada pela legenda há 4 anos.

O PSDB elegeu 497 prefeitos no domingo. São 302 a menos que em 2016. A queda, no entanto, pode ser amenizada pelo resultado do 2º turno – também considerando o total de eleitores governados. Os tucanos têm 13 candidatos com chances de serem eleitos em 29 de novembro.

Fonte: Com O Globo, Deutsche Welle Brasil, BBC Brasil, Poder 360, UOL e Metrópoles
CNTS

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